Entre o que sentimos e o que dizemos abre-se um intervalo que nenhuma gramática conseguiu ainda medir. Não é um abismo no sentido trágico da palavra, desses que engolem; é antes uma fenda estreita, quase imperceptível, por onde escorre aquilo que fomos sem conseguir declarar. Ali habitam as frases ensaiadas diante do espelho e nunca pronunciadas, os gestos que o corpo começou e a timidez interrompeu, as cartas escritas mentalmente durante insônias inteiras e jamais postas no papel. Esse intervalo tem uma substância curiosa: é feito de ausência, e no entanto pesa. É feito de nada, e no entanto ocupa espaço. Chamamos a isso saudade quando olhamos para trás, e angústia quando olhamos para a frente, mas é sempre a mesma matéria, a matéria do não acontecido. O silêncio, que costumamos tomar por simples falta de som, revela-se então um arquivo. Ele não é vazio; é saturado. Guarda as hesitações com a fidelidade de um tabelião, e quando enfim nos calamos diante de alguém, ele não nos dei...