O QUE É A MEMÓRIA?
A pergunta parece simples, mas apenas porque nos habituámos a conviver com o mistério sem o interrogar. Conheço uma resposta possível, embora suspeite que ela seja insuficiente. A memória é caminhar por corredores que já não existem, é escutar vozes que o mundo extinguiu e que, no entanto, continuam a falar dentro de nós com uma nitidez desconcertante. É descobrir que o passado não passou, apenas mudou de morada. É encontrar, numa tarde qualquer, o perfume de uma casa demolida há décadas. É recordar o rosto de alguém com mais precisão do que recordamos a nós mesmos. É a persistência do ausente. É abrir um livro e encontrar entre as páginas uma versão antiga de si mesmo, um estranho que usava o seu nome e acreditava em coisas que já não acredita. É perceber que os mortos continuam vivendo em nós através de gestos involuntários, de expressões herdadas, de medos cuja origem esquecemos. É carregar um cemitério invisível sob a pele. A memória é também uma forma peculiar de exílio. Porque aq...