O MANHÃ É O HOJE ADIADO
O amanhã é o lugar para onde enviamos tudo aquilo que não tivemos coragem de viver hoje. Depositamos nele as palavras que não dissemos, os abraços que economizamos, as decisões que o medo interrompeu e os sonhos que julgamos ainda não merecer. Transformamos o futuro numa espécie de armazém da existência, como se o tempo pudesse conservar intacto aquilo que a nossa hesitação abandona. Amanhã, diremos. Amanhã, iremos. Amanhã, começaremos. Amanhã, finalmente, seremos. E assim, enquanto pronunciamos essa palavra tão cheia de promessas, retiramo-nos silenciosamente do único instante em que a vida realmente acontece. O corpo permanece no presente, mas a consciência já partiu. Continuamos respirando, trabalhando, atravessando ruas, respondendo perguntas, porém alguma parte essencial de nós se ausentou por antecedência. Há uma forma discreta de morrer que não exige o fim do coração. Basta deixar de habitar os próprios dias. Muitos de nós não perdemos a vida de uma só vez. Perdemos aos po...