OS SEGREDOS DA ALMA
Há uma suspeita antiga, e talvez insuportável, que atravessa toda a tradição introspectiva do Ocidente, a saber, a de que a alma não é uma casa transparente onde habitamos com a luz acesa, mas antes um edifício de corredores que nem o seu próprio morador percorreu inteiramente, e onde certas portas, por razões que desconhecemos, permanecem deliberadamente fechadas. Pascal já o sabia quando escreveu que o coração tem razões que a própria razão desconhece, formulação que não é apenas uma defesa do sentimento contra o intelecto, mas antes o reconhecimento de que existe, no interior do sujeito, uma legislação secreta, anterior a qualquer deliberação consciente, que decide antes de nós aquilo que depois chamaremos de nossa escolha. Se isto é verdade, então a primeira e mais dolorosa das descobertas psicológicas não é a de que os outros nos escondem coisas, mas a de que nós mesmos somos, para nós mesmos, uma fonte de opacidade. A Rochefoucauld, com a crueldade elegante que lhe era próp...