A fina espessura do mundo
Há uma imagem atribuída a Werner Herzog que me inquieta: a civilização seria uma fina camada de gelo sobre um oceano profundo de caos e escuridão. A força da metáfora está menos na ameaça de que o gelo possa se romper do que na inversão de perspectiva que ela provoca. Vivemos sobre a superfície e, porque nela construímos cidades, instituições, memórias, bibliotecas, leis, mercados, famílias e rotinas, terminamos por confundir estabilidade com solidez. O chão parece firme porque amanheceu no mesmo lugar milhares de vezes. Mas continuidade não é garantia. Muitas das coisas que tomamos como naturais são, na realidade, configurações extraordinariamente improváveis que conseguiram permanecer estáveis por algum tempo. A própria vida deveria ter nos ensinado isso. Vista da escala do cosmos, a Terra é protegida por envoltórios quase insignificantes. Uma atmosfera relativamente tênue envolve o planeta; dentro dela, uma pequena concentração de ozônio absorve parte importante da radiação ultravio...