QUANDO MENOS SE ESPERA, O QUE SERIA, JÁ ERA
Há na língua portuguesa um tempo verbal que deveria ser estudado menos pelos gramáticos e mais pelos filósofos. Chama-se futuro do pretérito, e o nome, à primeira vista técnico e inofensivo, guarda uma pequena tragédia: é o futuro que mora dentro do passado, o amanhã que já nasceu velho, a promessa que se conjuga com voz de lembrança. "Seria" é o verbo de tudo aquilo que esteve a um passo de acontecer e, no entanto, permaneceu suspenso na beira do mundo, como um pássaro que abre as asas para o voo e descobre, no instante seguinte, que a árvore onde pousaria já foi cortada. E há, na fala do povo, uma expressão que completa a gramática com a crueza que só a rua conhece: "já era". Duas palavras e um velório inteiro. O pretérito imperfeito, que nas aulas aprendemos como o tempo da continuidade, do que durava, do que costumava ser, vira na boca das pessoas o carimbo do irremediável. Quando se diz "já era", diz-se que algo passou sem pedir licença, que o trem pa...