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O Bilionário Português que foi Condutor de Carruagens

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 Na cultura contemporânea, salários astronômicos e contratos milionários de astros do esporte costumam ser citados como símbolos da indústria do entretenimento global. Nomes como Tiger Woods, que em 2009 tornou-se o primeiro atleta a faturar mais de US$ 1 bilhão, Cristiano Ronaldo — considerado pela Forbes o primeiro bilionário do futebol, com faturamento acumulado superior a US$ 1 bilhão até 2020 e contratos anuais de US$ 50 milhões em salários no Real Madrid em 2017 —, Lionel Messi e Michael Jordan, com faturamento total de US$ 1,85 bilhão impulsionado por patrocínios, dominam o imaginário sobre o topo da riqueza esportiva. Contudo, levantamentos históricos e cálculos acadêmicos indicam que todos esses expoentes empalidecem em comparação com um condutor de carruagens do século 2 d.C.: Gaius Appuleius Diocles. Conhecido pelo nome de Gaius Appuleius Diocles em latim, o antigo lusitano-romano nasceu no ano 104 d.C. em Lamecum ou Lameca, atual cidade de Lamego, em Portugal. A povoaçã...

Raul lendo 1984, de George Orwell e a I.A (um texto de Scarlet Seixas, filha de Raul Seixas)

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Para quem está no Brasil e talvez ainda não esteja acompanhando o que está acontecendo aqui nos Estados Unidos, quero compartilhar algo que, pessoalmente, está começando a me assustar. Uma enorme infraestrutura tecnológica está sendo construída diante dos nossos olhos. Hoje, existem mais de 120 mil câmeras da Flock Safety espalhadas pelos Estados Unidos. Elas não são simplesmente câmeras comuns. Utilizam tecnologia automatizada para registrar placas, características dos veículos, localização, data e horário. Essas informações podem ser pesquisadas posteriormente por autoridades. A própria empresa descreve um sistema no qual é possível pesquisar veículos por características como marca, cor e tipo. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos vivem uma expansão gigantesca de data centres, impulsionada pela inteligência artificial, a ponto de o crescimento da demanda por energia já estar obrigando operadores da rede elétrica a repensar sua infraestrutura. E nós, seres humanos, estamos aprendendo a c...

Pankration. Um testemunho em bronze

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  Março de 1885. Roma respirava história sob cada pedra, mas naquele dia, no Monte Quirinal, os trabalhadores encontraram algo que parecia ter sido escondido pelo próprio tempo. Durante uma escavação próxima às antigas Termas de Constantino, a terra começou a revelar uma figura de bronze. Primeiro surgiram partes do corpo. Depois, o rosto. Não era um deus. Não era um imperador. Era um homem. Sentado, curvado, com o corpo marcado por golpes e o rosto carregado de exaustão. Era o Pugilista em Repouso. A luta marcial deste atleta chamava se pancrácio ou pankration. Só tinha duas regras: não socar ou chutar as partes baixas ou íntimas, e não pôr os dedos nos olhos do oponente. Era um desporto tremendamente brutal, violento e deveras sangrento e era disputado debaixo do tórrido sol e do imenso calor do Mediterrâneo helénico. Apesar de toda a violência que comportava o pancrácio era uma modalidade olímpica dos Jogos da antiga Grécia, e é a arte marcial precursora remota do boxe moderno. ...

Mel Gibson exagerou nos flagelos de Jesus?

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  Sim!  Mel Gibson exagerou visual e teologicamente na duração e na coreografia do açoitamento, embora a brutalidade histórica real da flagelação romana fosse, de facto, devastadora. Por outro lado, o texto dos Evangelhos não acentua nem detalha esses flagelos, mencionando-os de forma extremamente breve e sóbria. O Exagero de Mel Gibson vs. A Realidade Histórica Mel Gibson baseou grande parte da cena não nos Evangelhos, mas nas visões místicas da freira Ana Catarina Emmerich (século XIX). Ana Catarina Emmerich (1774–1824) foi uma freira agostiniana, mística e visionária  alemã do início  do século XIX .  Ficou mundialmente famosa pelas suas visões detalhadas da vida e da paixão de Jesus Cristo, que foram registadas pelo escritor Clemens Brentano e serviram de base para o filme A Paixão de Cristo , dirigido por Mel Gibson.   Relatou ter recebido os estigmas de Cristo e, durante um longo período, afirmou alimentar-se apenas da Eucaristia. Foi declarada beata...

A PINTURA DA ALMA

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  Há, dentro de cada ser humano, uma pintura que jamais termina. Não está pendurada em parede alguma, não possui moldura, não pode ser comprada, restaurada ou protegida contra o tempo. É uma obra clandestina, realizada lentamente no interior da consciência, com tintas que não escolhemos inteiramente. Algumas cores nos foram entregues pela infância, outras vieram das pessoas que amamos, muitas nasceram das feridas, e há tonalidades tão antigas que já não sabemos dizer se pertencem à nossa história ou à história daqueles que existiram antes de nós. Chamamos essa pintura de alma. Entretanto, a alma não é uma superfície branca sobre a qual a vida simplesmente deposita acontecimentos. Ela é, ao mesmo tempo, tela, tinta, pincel e pintor. Recebe aquilo que lhe acontece, mas também interpreta, altera, encobre e reinventa. Duas pessoas podem atravessar a mesma noite e amanhecer com paisagens interiores inteiramente diferentes. Uma guardará a escuridão, outra se lembrará de uma estrela. Uma ...

GOSTO DE SER UM CRONISTA DA ALMA

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  GOSTO DE SER UM CRONISTA DA ALMA Gosto de ser um cronista da alma. Não porque eu conheça todos os seus territórios, mas porque aprendi a respeitar os lugares onde a luz não chega inteira. A alma humana não se oferece como uma cidade vista do alto, com suas ruas delimitadas, suas praças reconhecíveis e seus caminhos desenhados com antecedência. Ela se parece mais com uma casa antiga, ampliada por gerações sucessivas, na qual alguns cômodos foram construídos para receber visitas, outros para esconder vergonhas, e certos corredores não conduzem a lugar algum, embora continuemos a atravessá-los durante toda a vida. Ser cronista da alma é aproximar-se dessa casa sem a arrogância de quem pretende conhecê-la melhor do que seu habitante. É observar as janelas fechadas, as luzes que permanecem acesas durante a madrugada, os retratos virados para a parede, os objetos que ninguém tem coragem de retirar do lugar. Existem pessoas que organizam cuidadosamente a sala de estar de sua personalida...

Darcy Ribeiro e A. Neto: a desigualdade e resolver os problemas do povo

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  Hoje acordei às seis da manhã. Na verdade, acordo cedo quase todos os dias. Talvez seja um dos deveres silenciosos da velhice: dormir menos e pensar mais. À medida que os anos avançam, parece que o corpo necessita de menos sono e a memória exige mais tempo para conversar conosco. Peguei o telemóvel — ou celular, como dizem aqui no Brasil — e, entre tantas mensagens e imagens que nos chegam antes mesmo do primeiro café, deparei-me com uma fotografia de Darcy Ribeiro acompanhada de uma frase: “A nossa classe dominante é enferma de desigualdade.” Parei. Há frases que simplesmente lemos. Outras nos obrigam a pensar. E esta me levou imediatamente para Angola. Lembrei-me de António Agostinho Neto e de uma das frases que ficaram associadas ao seu pensamento político: “O mais importante é resolver os problemas do povo.” Darcy Ribeiro de um lado do Atlântico. Agostinho Neto do outro. Brasil e Angola. Histórias diferentes, experiências coloniais distintas, dimensões territoriais diferentes...