O Feitiche pelo Título
Há uma crise silenciosa que atravessa a cultura contemporânea, não apenas uma crise de valores ou de linguagem, mas de orientação existencial. Vivemos imersos em um mundo em que os títulos valem mais que a substância, os rótulos mais que o conteúdo, e a aparência mais que a verdade. Muitos desejam algo, não pelo que ele é, mas pelo que ele simboliza, pelo prestígio que oferece, pelo lugar que confere na escada social. É o triunfo do parecer sobre o ser, da superfície sobre a profundidade. Esta inversão, longe de ser um fenômeno moderno isolado, ecoa advertências antigas da literatura e da filosofia, advertências que, ignoradas, nos conduzem a uma existência encenada, esvaziada de autenticidade. A literatura universal, sempre sensível aos desvios do espírito humano, denunciou esse fetichismo do título em diferentes épocas e formas. Dom Quixote, de Cervantes, é talvez o arquétipo do homem que se deixa seduzir pela imagem da glória. Seu desejo de ser cavaleiro andante não nasce de u...