Os Rios da Vida

 



Há algo na imagem de um rio que escapa à mera geografia. Ele não é apenas água em movimento, é tempo que se torna visível. Um curso que não se detém, que não retorna, que não se explica, apenas segue. E talvez por isso o homem, desde sempre, tenha se reconhecido nele.


A vida não se constrói em linhas retas, mas em desvios. Assim como o rio não escolhe o caminho mais curto, mas o possível, também nós somos levados por forças que não controlamos inteiramente. Há pedras, há quedas, há curvas abruptas, e, no entanto, o fluxo não cessa. O rio não discute o obstáculo, ele o contorna, ou o atravessa, ou se transforma diante dele.


Carregamos, como ele, aquilo que fomos. Sedimentos de experiências, memórias que se depositam no fundo do ser, moldando silenciosamente a forma do nosso curso. E ainda assim, à superfície, seguimos aparentando continuidade, como se fôssemos sempre os mesmos, quando, na verdade, nunca somos.


Há também uma estranha solidão no movimento. O rio está sempre acompanhado, pela margem, pelo vento, pela paisagem, mas seu destino é intransferível. Ele não pode delegar seu percurso, não pode interromper-se sem deixar de ser. Assim também o homem: cercado de presenças, mas entregue, no essencial, à própria travessia.


E, no entanto, há beleza nesse inevitável. Porque o rio não teme o mar. Ele não resiste ao fim, ele se entrega a ele. Não como derrota, mas como culminação. Tudo o que foi movimento encontra, ali, uma forma de permanência mais ampla, mais silenciosa.


Talvez viver seja isso: aprender a fluir sem a ilusão de controle absoluto, aceitar as curvas sem interpretá-las como erros, reconhecer que cada desvio também é caminho. E, sobretudo, compreender que não somos feitos para permanecer intactos, mas para nos tornarmos, continuamente, outra coisa.


Pois, como os rios, não existimos para parar, existimos para ir.


Oliver Harden

Subscrito 

Bonani

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