ENSAIO SOBRE JOSÉ SARAMAGO E O FENÔMENO RELIGIOSO

 
(…) até que, como de costume, tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma…" José Saramago



Desde os tempos mais remotos até os nossos dias, ritualidade e religiosidade entranham-se como parte intrínseca na alma humana. O homem é em sua essência um ser religioso e obstinadamente tendenciado através de ritos, aproximar-se de entidades superiores. São fenomenos percebidos claramente em todas as sociedades, seja na mais tribal, como também, na mais evoluída. Aliás, os fenomenos religiosos da nossa assim denominada "pós-modernidade" são em sí um fator que cresce em escala nunca antes vista, reafirmando que a cada dia o homem procura experiências espiritualistas!

Fenomeno pode ser definido como “tudo o que está sujeito à ação dos nossos sentidos, ou que nos impressiona de um modo qualquer, física,moralmente ou espiritualmente!”

Começar esta coluna com um “Ensaio sobre José Saramago e o Fenomeno Religioso”, torna-se pertinente, pois o falecimento dias atrás do escritor maior da lingua portuguesa e inimigo ferrenho da fé, estimula mais ainda o assunto!

Saramago declarou: “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro…”

José Saramago, novelista e jornalista, declarado ateu e socialista, nasceu em 1922. Sua obra "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" faz parte das mais de 600 obras escritas sobre a vida de Jesus.

O escritor português disse que o inferno "nunca teve nada a ver com a religião". "Para mim, sustentou ele:

…o inferno é este planeta onde vivemos, onde sofremos…

Ele disse que o “fenômeno religioso” sempre o interessou.

Declarou:

-"As pessoas têm necessidade de acreditar em algo que as transcendem e que vai mais além, que é uma forma de tratar de equilibrar os desastres do mundo"…


Autor de muitas obras e Nobel da Literatura é um ícone da cultura portuguesa, elevando a nossa lingua mãe no mais alto degrau no pódium da literatura. É inegável a contribuição intelectual de Saramago não só na cultura portuguesa, como mundial!

Crítico da Bíblia, da Fé e de Deus, Saramago amargou e destilou em sua alma uma revolta viceral contra tudo que se chama Deus, mas não o fez apenas na esfera da confissão cristã: fê-lo também contra outras confissões religiosas.

Lembro-me nos tempos da Universidade de ler um texto de sua autoria que ele tematizou: “O Fator Deus”.

Segue abaixo algumas partes de seu comentário…


“Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel.(…)”


A grande questão é que Saramago parece generalizar a religião e colocar Deus como uma entidade criada no imaginário coletivo e, sendo assim, o grande protagonista de todas as mazelas da vida!

Quanto a sua declaração, que não era ateu total e que buscava Deus todos os dias, porém não o encontrava, revela acima de tudo que sua alma tinha fome. Sim! Sua declaração revela na verdade a necessidade mascarada que Saramago possuía em suas entranhas de um dia “ter um encontro com Deus”!

Sem desmerecer os valores e contribuições que Saramago proporcionou à literatura, lembro-me de uma afirmação simples mas muito verdadeira em sua essêncialidade: “Deus sem o homem continua sendo Deus, o homem sem Deus é nada!”

O grande problema de Saramago foi catalisar toda a sua apologia contra Deus partindo do pressuposto das ações tiranas que em nome de Deus se fez durante toda a história. Diz ele em seu “Fator Deus”:


“Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "fator Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.”


Todo o leitor, ao ler qualquer obra de José Saramago onde questiona Deus e a fé, deverá interpretar a leitura à partir dessa hermenêutica acima - o “Fator Deus”. Sendo assim, compreenderá que toda a revolta de Saramago, assenta-se na questão dos crimes e mazelas que são cometidos em nome de Deus! Isso, porém, não isenta Saramago de sua opção, escolha e responsabilidade espiritual de rejeitar a realidade de uma fé genuína que revela e manifesta o único Deus de toda a terra!

Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniquidade;… Salmos 53:1


Saramago não só disse, como também escreveu!…


Ideberto Bonani

é formado em Ciência das Religiões pela Universidade Lusófona de Lisboa, diretor fundador da RETOS (Renovo: Escola de Treinamento de Obreiros), pastor da Igreja Batista Renovo de Porto, vice-presidente da Convenção Batista de Portugal, associado do ABAC (Associação Brasileira de Apologistas Cristãos) e assina a coluna Universo Religioso do INPR Brasil.

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