AS ETERNIZAÇÕES QUE A VIDA PRODUZ

 


O texto abaixo é expressivamente filosófico em sua composição. Ao falar de eternização, o escritor dá essencialmente à vida humana a capacidade de eternizar-se através dos eventos que essa vida produz e deixa como marcar memoriais nas esferas da memória sensorial, experiência sensorial ou sistema sensorial.

Subscrevo todo o texto abaixo, entretanto, minha convicção de eternidade vai muito além de ideias filosóficas, sensoriais,  artísticas e utópicas. Creio na ressurreição e vida eterna. "Eu sou a ressurreição e a vida". João 11:25.

Vamos então ao lindo texto:

AS ETERNIZAÇÕES QUE A VIDA PRODUZ

A vida é breve, mas não sabe passar sem deixar vestígios.
Mesmo quando parece apenas atravessar o mundo, ela deposita alguma coisa em cada lugar por onde passa. Uma voz fica dormindo dentro de uma casa. Um perfume permanece escondido numa roupa antiga. Uma frase, pronunciada quase sem intenção, atravessa décadas e reaparece na consciência de alguém justamente quando já não existe quem a pronunciou.
Talvez a eternidade não seja aquilo que nunca termina. Talvez seja aquilo que, mesmo depois de terminado, continua acontecendo.
Somos educados para imaginar o eterno como uma duração infinita, uma estrada sem último horizonte, um relógio incapaz de alcançar a hora derradeira. No entanto, a eternidade produzida pela vida não possui necessariamente a extensão dos séculos. Às vezes, ela cabe num instante. Há momentos tão intensos que o tempo não consegue consumi-los. Passam no calendário, mas permanecem na alma. Duraram alguns minutos e, ainda assim, continuam existindo dentro de nós com uma nitidez que muitos anos inteiros jamais alcançaram.
O primeiro encontro com alguém amado, a última conversa com quem partiu, uma tarde distante da infância, o gesto inesperado de uma pessoa que nos socorreu quando já não esperávamos qualquer bondade, tudo isso pertence ao passado, mas não está morto. Há acontecimentos que deixam de ocupar um lugar no tempo para ocupar um lugar em nossa constituição.
Não nos lembramos deles apenas. Somos feitos deles.
A memória é uma das oficinas secretas em que a vida fabrica suas eternidades. Ela recolhe aquilo que o tempo abandona e lhe concede outra forma de permanência. Não conserva tudo com fidelidade, evidentemente. A memória não é um arquivo, é uma artesã. Ela recorta, ilumina, silencia, exagera, recompõe. Retira certas cenas da corrente comum dos dias e as coloca numa espécie de santuário interior, onde já não envelhecem como envelhecem as coisas do mundo.
Por isso, a casa de nossa infância pode continuar existindo mesmo depois de demolida. Ela permanece numa claridade particular, habitada por pessoas que talvez já tenham morrido, atravessada por ruídos que ninguém mais escuta, perfumada por alimentos que nunca mais provaríamos da mesma maneira. A matéria desapareceu, mas a experiência resistiu. As paredes caíram no mundo e continuaram de pé dentro de nós.
Certos lugares possuem essa estranha duplicidade. Existem uma vez na geografia e outra vez na alma.
Quando retornamos a eles, quase sempre sentimos uma delicada decepção. A rua parece menor, o quintal perdeu a vastidão, a árvore já não alcança o céu, a janela tornou-se apenas uma janela. Não foi o lugar que diminuiu. Fomos nós que crescemos e deixamos de caber na medida encantada com que a infância construía o mundo. Procuramos na paisagem presente aquilo que somente existe na memória.
É então que compreendemos: não voltamos verdadeiramente aos lugares. Voltamos à ausência daquilo que fomos neles.
Também as pessoas produzem eternizações umas nas outras. Ninguém passa por uma vida sem deixar alguma inscrição. Há quem permaneça em nós como uma ternura, há quem permaneça como uma ferida. Alguns nos ensinam pela presença, outros pela falta. Alguns nos oferecem aquilo que devemos preservar, outros nos revelam, por meio da dor, aquilo que nunca devemos repetir.
Somos, em grande medida, uma multidão de pessoas que já nos tocaram.
Carregamos palavras de nossos pais, gestos de antigos amores, conselhos de professores, silêncios de amigos, medos herdados, delicadezas recebidas, crueldades suportadas. Em certos momentos, fazemos um movimento e reconhecemos nele alguém que já não está. Preparamos uma comida da maneira como nossa mãe preparava, pronunciamos uma expressão que pertencia ao nosso pai, acariciamos alguém com a mesma doçura que um dia nos salvou.
Então percebemos que os mortos não desaparecem completamente. Eles perdem o corpo, mas continuam participando de nossos gestos.
Talvez essa seja uma das formas mais humanas de eternidade: continuar no modo como outra pessoa trata o mundo.
Não somos eternizados apenas por monumentos, livros, retratos ou grandes realizações. Essas são formas públicas de permanência, e talvez as mais frágeis. Monumentos podem ser derrubados, livros podem deixar de ser lidos, retratos podem perder os nomes. A eternidade mais profunda costuma ser anônima. Ela acontece quando uma bondade recebida se transforma, anos depois, em bondade oferecida a outra pessoa.
Alguém nos acolhe num momento de abandono. Muito tempo depois, acolhemos alguém sem perceber que, naquele gesto, estamos prolongando a mão que um dia foi estendida para nós. A pessoa que nos ajudou talvez jamais conheça a consequência distante de sua delicadeza. Contudo, alguma coisa dela atravessou nosso corpo e alcançou uma vida que ela nunca encontrará.
A bondade possui descendências invisíveis.
O mesmo ocorre com a crueldade. Também o sofrimento tenta eternizar-se. Uma humilhação pode atravessar gerações, passando de pais para filhos como uma herança sem documentos. Quem foi ferido corre o risco de reproduzir a ferida, não porque deseje conscientemente causar dor, mas porque aprendeu a reconhecer o afeto pela linguagem da violência.
Por isso, interromper uma crueldade é uma das mais silenciosas formas de heroísmo. Quando recebemos uma ferida e decidimos não entregá-la adiante, alguma coisa termina em nós. Tornamo-nos o lugar em que uma antiga corrente de sofrimento finalmente encontra seu último elo.
Nem toda eternização merece continuar.
Há perpetuações que precisam ser interrompidas para que outras possam nascer. Romper um ciclo de violência, abandonar um preconceito herdado, recusar uma amargura familiar, tudo isso significa impedir que o passado continue utilizando nosso corpo para alcançar o futuro. Somos responsáveis não apenas por aquilo que deixaremos no mundo, mas também por aquilo que decidiremos não prolongar.
A vida nos transforma, assim, em passagens. Algo chega até nós, encontra nossa consciência e precisa ser escolhido. Podemos transmiti-lo, modificá-lo ou encerrá-lo. Somos pontes, mas não pontes passivas. Decidimos, tanto quanto nos é possível, o que atravessará para o outro lado.
O amor, evidentemente, é o grande artesão dessas permanências.
Amar alguém é permitir que sua existência adquira raízes em regiões de nós às quais o tempo não chega facilmente. Por isso, a separação nunca é completa. Podemos deixar de conviver, de conversar e até de desejar o retorno. Ainda assim, alguma coisa daquela pessoa permanece misturada ao modo como percebemos a vida.
Existem amores que não continuam como relações, mas continuam como linguagem interior.
Depois deles, determinada música já não é apenas música. Uma cidade deixa de ser apenas um conjunto de ruas. Uma estação do ano passa a carregar uma lembrança. Certos dias do calendário tornam-se territórios emocionais. O mundo inteiro começa a guardar pequenas relíquias de uma história que terminou.
O amor transforma a matéria em memória.
Uma xícara, uma cadeira, um livro com uma anotação na margem, uma fotografia ligeiramente desbotada, objetos comuns tornam-se recipientes de presenças. Seu valor já não está na utilidade, mas naquilo que hospedam. Tocamos essas coisas e não tocamos apenas a madeira, o papel ou a porcelana. Tocamos o tempo.
Talvez seja por isso que nos custa tanto desfazer-nos de certos objetos. Sabemos racionalmente que eles não são as pessoas, mas também sabemos que a razão não compreende tudo o que as coisas podem guardar. Há objetos que funcionam como pequenas portas. Basta abri-los para que um quarto antigo se ilumine novamente dentro de nós.
Entretanto, as eternizações mais belas não são produzidas pela tentativa desesperada de permanecer.
Quem vive obcecado em ser lembrado corre o risco de não estar verdadeiramente presente enquanto vive. Constrói estátuas para o futuro, mas não oferece companhia ao presente. Busca gravar o próprio nome na história e se esquece de inscrevê-lo com ternura na vida das pessoas próximas.
A permanência não pode ser inteiramente planejada. Muitas vezes, somos lembrados justamente por aquilo que fizemos sem pensar em memória alguma. Um conselho improvisado, uma risada, uma refeição preparada num dia comum, uma frase dita à porta, um gesto de paciência, são essas pequenas coisas que, inesperadamente, sobrevivem.
A vida possui critérios misteriosos para escolher aquilo que eterniza.
Grandes acontecimentos podem desaparecer, enquanto um detalhe insignificante permanece luminoso. Esquecemos o conteúdo de uma viagem inteira, mas nos lembramos da luz sobre o rosto de alguém. Perdemos as palavras de uma conversa decisiva, mas conservamos o silêncio que veio depois. Não recordamos o dia completo, apenas uma mão procurando a nossa.
A alma não arquiva os acontecimentos segundo sua importância pública. Ela guarda aquilo que a atravessou.
Também a arte nasce desse desejo de retirar alguma coisa do desaparecimento. Pintamos porque a luz termina. Escrevemos porque as vozes se calam. Fotografamos porque os rostos envelhecem. Compomos porque há sentimentos que morreriam sem encontrar uma forma capaz de atravessar o tempo.
Toda obra de arte é uma delicada insubordinação contra o esquecimento.
Contudo, a arte não derrota a morte. Ela faz algo talvez mais profundo: oferece àquilo que morreu uma nova maneira de estar presente. Um escritor desaparece, mas seus pensamentos continuam acontecendo na consciência de leitores ainda não nascidos. Um compositor deixa o mundo, mas seu espanto retorna sempre que alguém executa sua música. Um pintor já não possui olhos, mas continuamos contemplando aquilo que ele nos ensinou a ver.
A obra não conserva o artista inteiro. Conserva a vibração de uma experiência humana que se recusou a desaparecer sem testemunho.
Talvez escrevamos por isso. Não necessariamente para sermos eternos, mas para que uma percepção, uma dor, uma beleza ou uma pergunta possam continuar viajando depois que já não pudermos acompanhá-las. Escrever é colocar uma parte de nossa consciência numa embarcação e lançá-la ao tempo, sem saber quem a encontrará na outra margem.
Ainda assim, nenhuma eternização é absoluta. Até as memórias se apagam. As fotografias se deterioram. Os nomes se perdem. As cidades mudam. Os descendentes esquecem. Um dia, talvez não reste ninguém capaz de reconhecer nossa passagem.
Essa ideia pode parecer cruel, mas também contém uma forma de libertação.
Não precisamos durar para sempre para termos sido verdadeiros. Uma flor não fracassa porque murcha. Uma música não se torna inútil porque termina. Um encontro não perde seu valor porque não pôde prolongar-se. Há coisas cuja beleza depende justamente de não permanecerem. Elas são preciosas porque passam e, ao passar, revelam que estivemos vivos para presenciá-las.
A eternidade que a vida produz não é o contrário da finitude. Nasce dela.
Eternizamos porque perdemos. Guardamos porque as coisas passam. Amamos com intensidade porque, mesmo quando evitamos pensar nisso, sabemos que toda presença está a caminho de tornar-se lembrança. A mortalidade não diminui o valor da vida, ela concentra sua luz.
Talvez sejamos como uma janela iluminada ao anoitecer. A luz não permanecerá acesa para sempre, mas, enquanto existe, alcança a rua, toca quem passa e modifica, ainda que por um instante, a escuridão ao redor.
No fim, não seremos eternos como desejaria nossa vaidade. Seremos eternizados de maneiras menores, mais íntimas e talvez mais dignas. Permaneceremos numa frase que alguém repetirá sem recordar sua origem. Num gesto que ensinamos. Numa coragem que despertamos. Numa ferida que ajudamos a curar. Numa pessoa que, por ter sido amada por nós, aprendeu a não se considerar indigna de amor.
Continuaremos naquilo que fizemos florescer.
Talvez a pergunta essencial não seja por quanto tempo seremos lembrados, mas que espécie de lembrança nossa existência deixará no mundo. Se seremos uma sombra que alguém precisará superar ou uma claridade à qual poderá retornar quando tudo escurecer.
A vida passa.
Mas, em sua passagem, toca outras vidas, altera destinos, deposita sementes e acende pequenas luzes em lugares que talvez jamais conheçamos.
E, às vezes, uma dessas luzes continua brilhando muito depois de já termos partido.
É assim que a vida produz suas eternizações: não impedindo que desapareçamos, mas fazendo com que alguma coisa nascida de nossa existência sobreviva ao nosso desaparecimento.

Oliver Harden

Subscrito

Bonani

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