Memória. Detecção e Visão

 


A andorinha-das-chaminés que está esta semana nos fios eléctricos do teu bairro vai percorrer entre 10.000 e 12.000 quilómetros até ao Sul de África — e vai regressar em Março ao mesmo ninho, ao mesmo centímetro, que deixou em Setembro.


Esta fidelidade ao local de nidificação foi documentada com precisão milimétrica através de estudos de anilhamento em Portugal e em toda a Europa: a mesma andorinha adulta, identificada pela anilha na pata, regressa ao mesmo ninho em anos consecutivos, frequentemente com o mesmo parceiro. A distância percorrida em ida e volta por um único animal ao longo de uma vida de quatro a cinco anos de migração pode ultrapassar os 100.000 quilómetros.


O sistema de navegação que torna este regresso possível combina pelo menos três mecanismos independentes: a memória do mapa estelar aprendido nas primeiras noites após o nascimento — uma "impressão" das constelações visíveis da latitude de nascimento — a detecção do campo magnético da Terra através de cristais de magnetite nas células da cabeça, e a memória visual de pontos de referência terrestres ao longo da rota.


As andorinhas que estão nos fios esta semana estão em estado de hiperfagia — alimentação intensiva que pode duplicar o peso corporal em duas semanas. A gordura acumulada é o único combustível para a travessia do Sahara, que é feita em 60 a 80 horas de voo contínuo sem qualquer paragem para comer ou dormir. A andorinha que parte com reservas insuficientes morre no deserto.


A decisão de quando partir não é arbitrária: cada andorinha individual parte exactamente quando as reservas de gordura atingem o nível calculado para a distância a percorrer. Não antes — seria desperdício de tempo de alimentação. Não depois — seria risco de condições meteorológicas adversas sobre o Mediterrâneo.


As últimas andorinhas a partir em Portugal são frequentemente as que nasceram mais tarde — as mais jovens, que precisaram de mais tempo para acumular as reservas suficientes.

Bonani

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