A Fidelidade do Rio ao Seu Destino
Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz; porventura não a percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo.Isaías 43:19
A Fidelidade do Rio ao Seu Destino
Há uma sabedoria silenciosa na persistência dos rios. Eles não discursam, não reivindicam, não explicam a si mesmos, mas seguem. Desde a nascente modesta, muitas vezes apenas um fio de água nascido entre pedras, até o encontro vasto com o mar, o rio encarna uma forma de fidelidade que raramente encontramos no espírito humano: a fidelidade ao próprio curso.
A existência humana, contudo, costuma esquecer essa simplicidade profunda. Nós nos revoltamos contra as pedras, nos indignamos contra as represas, nos desesperamos diante da lama que nos atiram. O rio não. Ele recebe tudo sem confundir o obstáculo com o destino. Quando encontra uma barragem, contorna, infiltra, acumula forças. Quando lhe lançam sujeira, continua correndo, porque sabe, em sua lógica silenciosa, que o movimento é também purificação.
Heráclito já havia intuído essa verdade quando afirmou que ninguém entra duas vezes no mesmo rio. O fluxo é a lei do real. Nada permanece, tudo passa, tudo se transforma. O que hoje é gelo amanhã é corrente, o que hoje é estiagem amanhã pode ser cheia. O rio conhece essa dialética do tempo sem precisar formulá-la em palavras.
Às vezes ele congela. Às vezes quase desaparece. Há estações em que sua grandeza parece reduzida a um fio incerto entre pedras secas. Mas mesmo nessa aparente derrota, algo permanece intacto: a direção. O curso invisível continua inscrito na própria terra. O leito espera. A água voltará.
E há também os momentos de excesso. Quando o rio transborda, não é apenas destruição, é revelação de potência. Ele recorda que aquilo que parecia contido possui uma força interior capaz de romper margens. Assim também acontece com a vida humana: aquilo que parece pequeno, limitado ou silencioso pode, em certos instantes, revelar uma energia inesperada.
O destino do rio, porém, não é o obstáculo nem o excesso, mas o mar. Tudo o que lhe acontece no caminho, a sujeira, o gelo, a seca, as pedras, as curvas, não passa de episódios no interior de um movimento maior. O rio não se define pelo que encontra, mas pela direção que guarda.
Talvez seja essa a lição mais profunda que ele oferece. A vida não exige ausência de dificuldades, exige continuidade. O verdadeiro fracasso não está na represa, na lama ou no inverno que congela, mas na perda do curso interior.
Ser humano, afinal, talvez seja aprender a fazer o que os rios fazem desde o início do mundo: seguir. Mesmo quando o caminho se estreita. Mesmo quando o frio parece interromper tudo. Mesmo quando nos lançam sujeira.
Porque quem conserva o curso, cedo ou tarde, encontra o mar.
Subscrito
Bonani

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