O Círculo Que Nos Habita




Há uma geometria secreta na existência que os relógios não sabem medir, uma geometria que não avança em linha reta como as narrativas do progresso gostariam de nos convencer, mas que gira, que retorna, que insiste em nos devolver, com pequenas variações de luz, aos mesmos lugares onde já estivemos, e é nessa curvatura, nessa recusa obstinada da vida em se deixar reduzir a uma seta apontada para frente, que reside talvez a mais antiga e a mais ignorada das verdades humanas, a de que vivemos em espiral, e que cada volta que damos nos aproxima ou nos afasta de nós mesmos, sem que jamais possamos ter certeza, no instante em que giramos, se estamos nos encontrando ou nos perdendo.


Nietzsche, no pensamento do eterno retorno, não propôs uma cosmologia literal, mas um teste moral disfarçado de metafísica, uma pergunta que cada gesto deveria responder, a de saber se seríamos capazes de querer viver a mesma vida infinitas vezes, com todas as suas voltas e desvios, sem alteração alguma. E é justamente aqui que a imagem da vida como um círculo se torna insuportável para quem a habita com desatenção, pois o círculo não permite a fuga para adiante que o tempo linear promete, a ilusão de que o próximo ano, o próximo amor, a próxima cidade nos livrará definitivamente do que fomos. No círculo, o que fomos volta a nos visitar, batendo à porta com a mesma paciência com que a maré retorna à areia, indiferente às nossas objeções.


Mas há uma diferença essencial entre repetir e retornar, e é nessa diferença que Kierkegaard fundou uma das intuições mais finas de toda a filosofia existencial. Repetir é a mera reprodução do idêntico, o gesto mecânico de quem gira sem se transformar, uma roda presa em seu próprio eixo. Retornar, contudo, é outra coisa, é voltar ao mesmo ponto sendo já outro, é reconhecer a paisagem com olhos que aprenderam algo no intervalo da ausência. E é exatamente nessa fresta, entre a repetição estéril e o retorno fecundo, que se decide se uma volta da vida nos encontra ou nos perde. Porque existem voltas que apenas nos devolvem ao lugar de origem sem que tenhamos amadurecido coisa alguma, círculos viciosos disfarçados de destino, e existem voltas que são, na verdade, espirais ascendentes, nas quais o ponto de chegada parece o mesmo do ponto de partida, mas já não o é, porque nós já não somos os mesmos que partiram.


Heidegger chamaria isso de um problema de autenticidade diante do tempo, a diferença entre o Dasein que se deixa levar pela repetição anônima do impessoal, o "se faz assim", o "sempre foi assim", e aquele que assume resolutamente sua finitude, que compreende que cada retorno é também um chamado à decisão. Perder-se numa volta da vida é, nesse sentido preciso, permitir que o círculo gire por nós, sem que nele estejamos verdadeiramente presentes, é atravessar os mesmos amores, os mesmos erros, as mesmas cidades, sem nunca perguntar por que insistimos em habitá-los. Encontrar-se, ao contrário, é reconhecer, no meio da volta, o instante exato em que a repetição poderia se tornar apenas hábito, e escolher, ainda assim, atravessá-la com os olhos abertos.


Pascal escreveu que todo o mal dos homens vem de não saberem ficar tranquilamente sentados sozinhos em um quarto, e talvez seja essa incapacidade de repouso, esse horror ao vazio que nos faz girar sem cessar, buscando nas voltas externas o que só poderia ser resolvido na quietude interior. Quantas viagens não são, na verdade, fugas circulares, quantos recomeços não são apenas o mesmo abismo revestido de nova paisagem. E no entanto, seria ingênuo condenar o movimento em si, pois há algo de profundamente humano, e mesmo sagrado, nessa necessidade de sair de si para depois voltar, como o filho pródigo cuja parábola só faz sentido porque houve partida, porque houve distância, porque houve, sobretudo, o retorno consciente de quem já não é o mesmo que se foi.


Talvez a vida não seja, portanto, nem a linha reta que a modernidade prometeu, nem o círculo fechado que o desespero teme, mas algo mais parecido com aquilo que Camus chamou de a felicidade possível dentro do absurdo, a saber, o gesto de Sísifo que sobe a mesma montanha sabendo que a pedra rolará de novo, e que encontra, justamente nessa repetição sem esperança de término, uma forma silenciosa de dignidade. Porque talvez encontrar-se nas voltas da vida não signifique jamais parar de girar, mas aprender a habitar o giro com lucidez, a reconhecer, a cada retorno à mesma dor, ao mesmo medo, à mesma pergunta não respondida, que ali, naquele ponto exato da curva, ainda é possível uma decisão que não estava disponível da última vez.


E se há perda verdadeira nessas voltas, ela não está na repetição em si, mas no esquecimento de que giramos. Perde-se quem confunde o círculo com uma prisão e deixa de perguntar o que o círculo lhe ensina. Encontra-se quem, mesmo sem escapar da curva, aprende a lê-la como um texto que se reescreve a cada passagem, e assim descobre que talvez não exista, no fundo, uma linha reta que nos salvaria do retorno, mas apenas a possibilidade, sempre renovada, de retornar como quem já sabe, ainda que vagamente, o preço e o sentido de cada volta.


Oliver Harde

Subscrito 

Bonani

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