Cartas Vivas. Personalidade E As VERDADES INDESEJÁVEIS!



O texto abaixo não é de minha autoria, entretanto o subscrevo na integra.

É um texto longo...

Quando o terminei de ler, me veio a mente um texto do apóstolo Paulo: Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração. 2 Coríntios 3:2,3

Nossa vida é uma carta aberta lida por todos e está implícita nessa mesma vida a nossa personalidade.

Quero aproveitar essa expressão paulina, alinhando-a com o texto abaixo,procurando examinar sem reservas em que perfil eu me enquadro no aspecto de minha personalidade.

Convido-o(a) a fazer o mesmo!

Segue o texto:

HÁ QUEM CHAME DE PERSONALIDADE AQUILO QUE NUNCA TEVE CORAGEM DE CORRIGIR EM SI
Existe uma diferença profunda entre possuir personalidade e transformar os próprios defeitos em identidade. A personalidade é a forma singular pela qual alguém habita o mundo, interpreta a realidade, organiza seus afetos e responde à existência. O defeito, por sua vez, é uma deformação dessa forma, uma inclinação que produz sofrimento, limita a consciência ou deteriora as relações. Confundir uma coisa com a outra é uma das estratégias mais eficientes do orgulho, porque permite ao indivíduo preservar suas falhas atribuindo-lhes a dignidade de características essenciais.
“Eu sou assim” talvez seja uma das frases mais perigosas da linguagem humana. Em sua aparente simplicidade, ela pode esconder uma recusa absoluta ao crescimento. Frequentemente, não significa apenas “esta é a minha maneira de ser”, mas “não pretendo examinar o que faço, não aceitarei as consequências morais do meu comportamento e considero obrigação dos outros adaptarem-se àquilo que me recuso a transformar”.
Há pessoas que chamam a própria agressividade de sinceridade. Orgulham-se de dizer tudo o que pensam, como se a incapacidade de escolher palavras fosse uma demonstração de autenticidade. Ferem, constrangem, diminuem e depois se defendem afirmando que não possuem filtros. Não percebem que sinceridade sem responsabilidade é apenas violência verbal ornamentada com uma virtude. Dizer a verdade não exige crueldade, assim como ser delicado não exige mentira. Quem utiliza a franqueza como autorização para humilhar não está sendo autêntico, está apenas transferindo aos outros o preço de sua indisciplina emocional.
Outros chamam a arrogância de personalidade forte. Confundem firmeza com incapacidade de ouvir, segurança com necessidade de dominar, autoridade com desprezo. Entram em qualquer conversa não para compreender, mas para vencer. Não dialogam, ocupam. Não argumentam, impõem. Quando contrariados, interpretam a discordância como desrespeito, porque construíram uma imagem tão grandiosa de si mesmos que qualquer limite lhes parece uma ofensa.
Uma personalidade verdadeiramente forte não precisa esmagar ninguém para demonstrar consistência. A força interior se revela na capacidade de suportar a contradição sem transformar o outro em inimigo. O indivíduo seguro consegue revisar uma opinião, reconhecer um erro e pedir desculpas sem sentir que sua existência foi diminuída. Somente os frágeis precisam parecer infalíveis. A rigidez que exibem como força costuma ser apenas uma estrutura defensiva erguida ao redor do medo de serem desmentidos.
Há também quem chame a frieza de racionalidade. São pessoas que se orgulham de não demonstrar sentimentos e consideram qualquer sensibilidade um sinal de fraqueza. Contudo, muitas vezes, aquilo que apresentam como domínio emocional é apenas medo de intimidade. Não aprenderam a lidar com a vulnerabilidade, então passaram a desprezá-la. Chamam de equilíbrio sua dificuldade de se entregar, de independência sua incapacidade de confiar e de lucidez o distanciamento com que evitam comprometer-se afetivamente.
A razão não exige a mutilação dos sentimentos. Pelo contrário, uma racionalidade madura reconhece que as emoções também oferecem informações sobre nossos valores, medos, desejos e feridas. Ser racional não é não sentir, é não se tornar escravo daquilo que se sente. A pessoa emocionalmente adulta não elimina os afetos, aprende a compreendê-los, expressá-los e responsabilizar-se pelo modo como age sob sua influência.
Alguns chamam o ciúme de intensidade. A vigilância torna-se cuidado, a invasão recebe o nome de preocupação e a posse apresenta-se como amor. Querem controlar amizades, roupas, horários, palavras e silêncios, mas recusam-se a reconhecer que amam como quem administra uma propriedade. Quando o outro protesta, respondem que esse é apenas o seu jeito de amar. Como se o amor pudesse absolver tudo aquilo que, em seu nome, destrói a liberdade da pessoa amada.
Entretanto, amar não é tornar-se proprietário do mundo interior de alguém. O amor que precisa aprisionar para não perder já perdeu sua dignidade antes mesmo de perder o objeto de sua afeição. Ciúme excessivo não demonstra a grandeza do sentimento, revela a precariedade emocional de quem não suporta a possibilidade de não ser suficiente. Não é a profundidade do amor que produz o controle, é a profundidade do medo.
Há quem chame a irresponsabilidade de espírito livre. Não cumpre compromissos, não considera consequências, abandona projetos, decepciona pessoas e celebra a própria imprevisibilidade como se fosse uma virtude poética. Diz não aceitar amarras, quando, na verdade, não tolera deveres. Deseja todas as possibilidades da liberdade, mas nenhuma de suas responsabilidades.
A liberdade adulta não consiste em fazer tudo o que se deseja. Consiste em responder conscientemente por aquilo que se escolhe. Sem responsabilidade, a liberdade degrada-se em capricho. E o capricho é apenas uma forma infantil de poder, o desejo de agir sem admitir que cada gesto altera a vida de outras pessoas.
Também existem aqueles que chamam a passividade de bondade. Nunca discordam, não estabelecem limites, evitam conflitos e cedem constantemente. Imaginam ser pacíficos, embora muitas vezes estejam apenas aterrorizados diante da rejeição. Sua bondade não nasce necessariamente de uma escolha moral, mas da incapacidade de suportar que alguém se aborreça com eles.
Com o tempo, acumulam ressentimentos e passam a cobrar silenciosamente dos outros uma gratidão que jamais foi combinada. Entregaram o que não queriam entregar, aceitaram o que desejavam recusar e, depois, responsabilizam o mundo por não ter adivinhado os limites que nunca expressaram. A bondade sem liberdade interior pode transformar-se em servidão, e a servidão voluntária, quando frustrada, frequentemente se converte em amargura.
Não dizer “não” não faz de alguém uma pessoa boa. Às vezes, faz apenas uma pessoa incapaz de se posicionar. A verdadeira bondade inclui a coragem de estabelecer fronteiras, porque quem nunca protege os próprios limites acaba oferecendo aos outros um afeto contaminado por exaustão e ressentimento.
Há quem chame a vitimização de sensibilidade. Qualquer crítica se torna perseguição, toda frustração é interpretada como injustiça e cada conflito confirma a narrativa de que o mundo conspira contra sua felicidade. Essas pessoas não desejam compreender o que aconteceu, desejam preservar a própria inocência. Por isso, reconstroem os acontecimentos de maneira que seus erros apareçam sempre como reações inevitáveis aos erros alheios.
A condição de vítima pode ser uma realidade, mas também pode tornar-se uma identidade. E quando isso acontece, o sofrimento passa a conceder privilégios psicológicos. A pessoa já não precisa examinar suas escolhas, porque toda responsabilidade foi depositada fora de si. Não precisa mudar, porque acredita que são os outros que precisam reparar tudo. Sua dor, legítima ou não, transforma-se em uma espécie de tribunal no qual ela ocupa simultaneamente o lugar de testemunha, promotora e juíza.
Reconhecer a própria responsabilidade não significa negar as violências sofridas. Significa impedir que o mal recebido se transforme em autorização para reproduzir o mal. O passado explica muitas de nossas deformações, mas não pode absolvê-las para sempre. Depois de certo ponto, continuar a agir da mesma maneira deixa de ser apenas consequência do que fizeram conosco e passa a ser também resultado daquilo que escolhemos não corrigir.
Talvez o apego aos próprios defeitos nasça do medo de descobrir quem seríamos sem eles. Um comportamento repetido durante muitos anos deixa de parecer um hábito e passa a ser vivido como identidade. O indivíduo já não diz “ajo de maneira agressiva”, diz “sou agressivo”. Não afirma “tenho dificuldade de confiar”, declara “não confio em ninguém”. O verbo ser encerra aquilo que o verbo estar ainda permitiria transformar.
Essa mudança linguística possui consequências existenciais. Quando alguém diz que é alguma coisa, transforma um padrão modificável em essência permanente. O defeito deixa de ser um aspecto da conduta e torna-se uma definição do próprio sujeito. Corrigi-lo passa, então, a parecer uma traição contra si mesmo.
É por isso que algumas pessoas defendem seus vícios emocionais com tamanha ferocidade. Não estão protegendo apenas um comportamento, estão protegendo a imagem pela qual aprenderam a reconhecer-se. Se abandonarem a brutalidade, quem serão? Se deixarem de controlar, como amarão? Se não puderem mais culpar os outros, o que farão com a responsabilidade? Se aprenderem a dizer “não”, ainda serão consideradas boas? A transformação ameaça porque exige uma breve dissolução da identidade conhecida.
Todo amadurecimento contém uma espécie de luto. Para crescer, precisamos despedir-nos de versões de nós mesmos que um dia serviram para nossa sobrevivência. A desconfiança talvez tenha nos protegido em determinado momento. A frieza pode ter impedido que uma dor nos destruísse. A agressividade talvez tenha surgido quando ainda não possuíamos outro meio de defesa. O problema começa quando transformamos mecanismos de sobrevivência em modos permanentes de existência.
Aquilo que nos salvou em uma circunstância pode nos aprisionar em todas as outras. Uma armadura é útil durante a guerra, mas torna-se uma prisão quando continuamos usando-a nos lugares em que desejamos ser abraçados. Não podemos exigir intimidade enquanto permanecemos protegidos contra qualquer possibilidade de sermos alcançados.
A sociedade contemporânea contribui para essa confusão ao transformar quase toda característica pessoal em algo que precisa ser incondicionalmente celebrado. Sob o discurso necessário da aceitação, introduziu-se a ideia perigosa de que qualquer tentativa de mudança representa rejeição de si. Assim, corrigir um defeito passou a parecer falta de amor próprio, quando, na verdade, pode ser uma de suas expressões mais elevadas.
Amar a si mesmo não significa aprovar tudo o que existe em nós. Isso seria complacência, não amor. Quem ama cuida, e cuidar também significa corrigir aquilo que destrói. Se uma pessoa se recusa a examinar suas crueldades, seus excessos, sua irresponsabilidade e suas manipulações em nome da autoaceitação, ela não está se amando. Está apenas protegendo-se do desconforto de amadurecer.
O verdadeiro amor próprio não diz “sou assim e todos devem suportar-me”. Ele pergunta: “Aquilo que sou permite que eu conviva sem adoecer a mim mesmo e aos outros?” Essa pergunta exige coragem porque desloca a identidade do território da autoimagem para o campo das consequências. Já não importa apenas como nos definimos, mas o que nossa presença produz ao redor.
Podemos considerar-nos sinceros, mas precisamos observar se deixamos humilhações por onde passamos. Podemos chamar-nos intensos, mas devemos perceber se nossa intensidade sufoca. Podemos dizer que somos independentes, mas é necessário perguntar se nossa independência não é incapacidade de receber afeto. Podemos orgulhar-nos de nossa força, mas convém verificar quantas pessoas precisaram diminuir para que nos sentíssemos grandes.
A verdade sobre uma característica não está apenas no nome que lhe damos, mas nos efeitos que ela provoca. O ser humano possui extraordinária habilidade para batizar seus defeitos com palavras moralmente elegantes. A avareza torna-se prudência, a covardia transforma-se em cautela, a indiferença chama-se paz, o egoísmo apresenta-se como prioridade, a grosseria reivindica o nome de autenticidade e a incapacidade de pedir perdão disfarça-se de dignidade.
Mudar os nomes, entretanto, não altera a natureza das coisas. Podemos chamar veneno de remédio, mas ele continuará adoecendo quem o recebe.
Isso não significa que devamos viver em guerra contra nós mesmos. A transformação verdadeira não nasce do ódio por aquilo que somos, mas da responsabilidade por aquilo que podemos nos tornar. Quem se odeia deseja destruir-se. Quem se ama de maneira madura deseja educar-se. E educar a si mesmo é uma tarefa dolorosa, porque exige disciplina para contrariar impulsos que durante anos foram confundidos com espontaneidade.
Nem tudo o que é espontâneo é autêntico, e nem tudo o que é autêntico é digno. A raiva pode ser espontânea, a crueldade pode ser autêntica e o egoísmo pode expressar fielmente aquilo que alguém sente. A ética começa justamente quando compreendemos que não estamos obrigados a obedecer a tudo o que surge dentro de nós. Ter um impulso não significa possuir o direito de transformá-lo em conduta.
Personalidade não é o conjunto bruto de nossas inclinações. É também o resultado do trabalho que realizamos sobre elas. Uma pessoa não se torna menos autêntica porque aprendeu a controlar a agressividade, ouvir antes de julgar, pedir desculpas, respeitar limites ou demonstrar sentimentos. Ela não perdeu personalidade, perdeu apenas a necessidade de usar seus defeitos como prova de identidade.
Talvez a personalidade mais admirável não seja aquela que permanece igual ao longo do tempo, mas aquela que possui consistência suficiente para transformar-se sem deixar de reconhecer a própria história. Permanecer sempre o mesmo não é necessariamente fidelidade a si. Às vezes, é apenas estagnação protegida pelo orgulho.
A coragem não consiste em dizer ao mundo “aceite-me como sou”. Há situações em que essa frase é necessária, sobretudo diante daqueles que desejam apagar nossa dignidade ou negar nossa singularidade. Mas existem outras em que ela se torna um salvo-conduto para a irresponsabilidade. A coragem maior talvez seja dizer a si mesmo: “Não preciso continuar sendo tudo aquilo que aprendi a ser”.
É mais fácil defender um defeito do que corrigi-lo. A defesa exige apenas argumentos, a correção exige renúncia. Para justificar a agressividade, bastam algumas frases sobre sinceridade. Para superá-la, é necessário vigiar palavras, reconhecer gatilhos, suportar frustrações e aprender novas formas de expressão. Para chamar o ciúme de amor, basta romantizá-lo. Para transformá-lo, é preciso enfrentar a insegurança que o alimenta. Para apresentar a frieza como força, basta desprezar os sensíveis. Para abandoná-la, é necessário correr o risco de ser visto por inteiro.
Muitas pessoas preferem parecer fortes a realizar o trabalho difícil de se tornarem inteiras.
No fim, aquilo que chamamos de personalidade deveria ser menos uma fortaleza construída para impedir mudanças e mais uma casa capaz de ser reformada sem perder seus fundamentos. Há paredes que precisam ser derrubadas, janelas que devem ser abertas e cômodos onde já não é saudável continuar vivendo.
Nenhum ser humano é obrigado a permanecer prisioneiro da pessoa que precisou ser no passado. Podemos reconhecer nossas sombras sem convertê-las em sobrenome. Podemos compreender nossas feridas sem fazer delas uma constituição moral. Podemos acolher nossa história sem permitir que ela determine para sempre o modo como trataremos o mundo.
Há, de fato, quem chame de personalidade aquilo que nunca teve coragem de corrigir em si. Mas a personalidade não se demonstra pela fidelidade aos próprios defeitos. Demonstra-se pela coragem de examiná-los sem desculpas, transformá-los sem vergonha e compreender que deixar de ferir não significa deixar de ser quem somos.
Talvez signifique, finalmente, começar a ser quem poderíamos ter sido se o orgulho não tivesse transformado nossas limitações em identidade. (Oliver Harden)

Bonani

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