O Círculo Que Nos Habita
Há uma geometria secreta na existência que os relógios não sabem medir, uma geometria que não avança em linha reta como as narrativas do progresso gostariam de nos convencer, mas que gira, que retorna, que insiste em nos devolver, com pequenas variações de luz, aos mesmos lugares onde já estivemos, e é nessa curvatura, nessa recusa obstinada da vida em se deixar reduzir a uma seta apontada para frente, que reside talvez a mais antiga e a mais ignorada das verdades humanas, a de que vivemos em espiral, e que cada volta que damos nos aproxima ou nos afasta de nós mesmos, sem que jamais possamos ter certeza, no instante em que giramos, se estamos nos encontrando ou nos perdendo. Nietzsche, no pensamento do eterno retorno, não propôs uma cosmologia literal, mas um teste moral disfarçado de metafísica, uma pergunta que cada gesto deveria responder, a de saber se seríamos capazes de querer viver a mesma vida infinitas vezes, com todas as suas voltas e desvios, sem alteração alguma. E é justa...