OS SEGREDOS DA ALMA

 



Há uma suspeita antiga, e talvez insuportável, que atravessa toda a tradição introspectiva do Ocidente, a saber, a de que a alma não é uma casa transparente onde habitamos com a luz acesa, mas antes um edifício de corredores que nem o seu próprio morador percorreu inteiramente, e onde certas portas, por razões que desconhecemos, permanecem deliberadamente fechadas. Pascal já o sabia quando escreveu que o coração tem razões que a própria razão desconhece, formulação que não é apenas uma defesa do sentimento contra o intelecto, mas antes o reconhecimento de que existe, no interior do sujeito, uma legislação secreta, anterior a qualquer deliberação consciente, que decide antes de nós aquilo que depois chamaremos de nossa escolha. Se isto é verdade, então a primeira e mais dolorosa das descobertas psicológicas não é a de que os outros nos escondem coisas, mas a de que nós mesmos somos, para nós mesmos, uma fonte de opacidade.
A Rochefoucauld, com a crueldade elegante que lhe era própria, levou esta suspeita a um território ainda mais desconfortável, ao sugerir que o amor-próprio é o maior de todos os aduladores, e que ele disfarça, com uma habilidade que ultrapassa a do mais consumado dos atores, os motivos verdadeiros das nossas ações sob a aparência das virtudes. O que ele descreve não é a simples hipocrisia social, o gesto calculado de quem engana o próximo, mas algo mais radical e mais íntimo, a saber, a existência de uma segunda alma dentro da primeira, cuja função exclusiva é fabricar, para uso interno, narrativas que tornem suportável aquilo que somos. Freud, séculos depois, daria a isto um nome clínico, mas o diagnóstico moral já estava presente nos moralistas franceses, que compreenderam, sem o aparato da metapsicologia, que o sujeito é o primeiro e o mais interessado dos seus próprios censores.
Kierkegaard aprofundou esta arqueologia ao definir o desespero não como um estado de sofrimento manifesto, mas como uma relação mal ajustada do eu consigo mesmo, relação que pode subsistir, e frequentemente subsiste, sem que o sujeito jamais tome consciência dela. Há, para Kierkegaard, um desespero que se ignora, e este é, paradoxalmente, o mais perigoso de todos, porque não solicita cura alguma, instalado que está sob a aparência de uma vida bem-sucedida. O segredo da alma, nesta perspectiva, não é um conteúdo escondido, uma lembrança reprimida ou um desejo inconfessável, mas antes uma estrutura, um modo de relação consigo que o próprio sujeito não sabe nomear, e que por isso mesmo o governa com tanto mais eficácia quanto menos é reconhecido.
Dostoiévski deu corpo literário a esta intuição no seu Homem do Subsolo, personagem que se conhece a si mesmo com uma lucidez atroz, e que precisamente por isso revela que a autoconsciência, longe de ser o remédio contra a opacidade da alma, pode tornar-se ela própria uma forma sofisticada de labirinto, onde o sujeito se perde não por ignorância, mas por excesso de espelhos voltados uns para os outros. Aqui reside talvez o paradoxo mais fecundo desta questão, o de que conhecer-se não basta, e de que a alma pode guardar os seus segredos mesmo, e sobretudo, diante de um olhar que a examina sem tréguas.
Sartre, herdeiro desta linhagem embora a rejeitasse em parte, propôs o conceito de má-fé para descrever o modo pelo qual a consciência se mente a si mesma sem deixar de saber, num nível qualquer, que mente. Há nisto uma dobra ontológica de rara sutileza, pois a má-fé exige que o sujeito seja, ao mesmo tempo, o enganador e o enganado, unidade impossível que no entanto se realiza a cada instante em que preferimos a comodidade de uma essência fixa à angústia de uma liberdade sem apoio. O segredo, aqui, não está escondido de nós por um outro, nem sequer por um inconsciente impessoal, mas é ativamente produzido, e sustentado, por nós mesmos, contra nós mesmos.
Heidegger acrescentaria a esta paisagem a distinção entre a existência autêntica e a dispersão no impessoal, no que ele chama o wird, esse sujeito anônimo e coletivo, encarnado nas opiniões que se dizem e nos gestos que se repetem sem que ninguém em particular os tenha escolhido. A alma, nesta leitura, esconde-se de si mesma não por profundidade, mas por superficialidade, perdida na tagarelice pública que lhe poupa o esforço de se perguntar quem é. O segredo mais bem guardado seria então, paradoxalmente, a ausência de qualquer segredo profundo, a constatação desoladora de que sob as muitas máscaras não há necessariamente um rosto, mas talvez apenas mais uma máscara, e depois outra, numa regressão que a modernidade tardia tornou vertiginosa.
Byung-Chul Han, já no nosso século, observou que a sociedade contemporânea declarou guerra a toda opacidade, exigindo de cada sujeito uma transparência total, exibida, mensurável, compartilhável, e sugeriu que esta exigência, longe de libertar a alma, a esvazia, pois é precisamente da sua capacidade de se recolher, de guardar para si aquilo que não se comunica, que depende a possibilidade mesma de uma vida interior. Se isto é correto, então preservar um segredo, hoje, não é mais uma fraqueza moral a superar, mas talvez o último gesto de resistência de que a alma dispõe contra um mundo que a quer inteiramente visível, inteiramente útil, inteiramente vendável.
Resta, ao final deste percurso, uma conclusão que não consola, mas que talvez liberte: a alma não guarda os seus segredos como um cofre guarda um tesouro que bastaria encontrar a chave certa para revelar. Ela é, ela própria, o processo pelo qual certas verdades sobre nós se tornam, e permanecem, irrecuperáveis, não por acidente, mas por necessidade estrutural. Conhecer-se, portanto, não é abrir portas já existentes, mas aceitar que algumas delas foram construídas precisamente para nunca se abrirem, e que esta recusa, longe de ser um defeito a corrigir, é talvez a última e mais discreta forma de dignidade que nos resta.
Oliver Harden

Subscrito

Bonani

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