A ANATOMIA DA ESPERANÇA

 



Há uma anatomia secreta na esperança, um esqueleto que sustenta a carne mole dos dias, e ninguém a dissecou sem ferir as próprias mãos no processo, porque esperar não é um gesto do intelecto, é antes uma febre que habita o corpo antes de se tornar palavra, um calor que insiste em correr nas veias mesmo quando a razão já assinou o atestado de óbito de todas as possibilidades.


Kierkegaard chamou de paixão aquilo que outros chamariam de ingenuidade, e talvez estivesse certo ao afirmar que só se pode viver de fato quando se atravessa o abismo sem a garantia de uma ponte, quando se salta não porque se calculou a distância, mas porque a alternativa, a imobilidade eterna diante do precipício, é uma forma mais lenta e mais covarde de morrer. A esperança, nesse sentido, não é otimismo, é o contrário exato da certeza, é aquilo que só existe porque o resultado permanece invisível, porque se pudéssemos ver o fim já não precisaríamos da fé que a sustenta.


Mas há também uma anatomia mais fria, mais clínica, e é preciso nomeá-la sem embelezamentos. Pascal, ao apostar em Deus não por convicção mas por cálculo, revelou algo perturbador sobre a esperança, que ela pode nascer não da confiança, mas do medo do nada, que sob a pele luminosa da fé pulsa às vezes um coração pequeno e assustado que apenas escolheu o menor dos horrores possíveis. E é aqui que a esperança se torna suspeita, porque nem toda esperança é nobre, algumas são apenas anestesias bem vestidas, formas elegantes de adiar o encontro com a própria finitude.


Camus, esse que se recusou a mentir mesmo quando a mentira consolava, viu no mito de Sísifo não uma tragédia mas uma anatomia possível da dignidade, o homem que empurra a pedra sabendo que ela sempre retornará, e que apesar disso, ou por causa disso, encontra nos músculos do próprio esforço uma forma de alegria que não depende do topo do monte. Ali a esperança se dissolve e algo mais duro toma seu lugar, a aceitação lúcida, que talvez seja mais respeitável que a esperança ingênua, porque não precisa de promessas para justificar o movimento.


E ainda assim, há algo que resiste a essa dissolução estoica, algo que insiste em bater no peito mesmo depois que todas as filosofias da resignação já fizeram seus discursos convincentes. Talvez a esperança seja, afinal, menos uma ideia e mais um órgão, um músculo involuntário como o coração, que continua contraindo e relaxando mesmo quando a mente já decidiu que não há razão suficiente para tanto. Não perguntamos ao coração se ele acredita em amanhã antes de bater, ele simplesmente bate, e talvez a esperança funcione da mesma maneira primitiva e teimosa, anterior a qualquer argumento, resistente a qualquer prova em contrário.


Há quem confunda esperança com esperar por algo específico, uma cura, um retorno, uma vitória, mas a anatomia mais funda revela outra coisa, revela que a esperança pura não espera um objeto determinado, ela apenas sustenta o espaço onde qualquer objeto ainda pode chegar a existir. Ela não é a certeza de que a luz virá, é apenas a recusa obstinada em fechar a janela antes que a noite termine.


Isso talvez explique por que os que mais sofreram são, paradoxalmente, os que mais souberam falar dela com autoridade, porque a esperança não é luxo dos que têm tudo garantido, é antes o último instrumento dos que perderam quase todas as garantias e ainda assim se recusam a converter essa perda em profecia definitiva sobre o futuro. Ela não nega a dor, apenas nega que a dor tenha a palavra final.


E talvez seja essa a sua anatomia mais honesta, não um órgão de ingenuidade, mas de resistência, não a crença de que tudo terminará bem, mas a decisão, renovada a cada manhã contra todas as evidências acumuladas da véspera, de que ainda vale a pena caminhar em direção ao que não se pode ver. Uma anatomia feita não de certezas, mas de tendões esticados no escuro, esperando, sem saber por quê, que a luz ainda tenha algo a dizer.


Oliver Harden

Subscrito 

Bonani

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

δύναμις e ἐξουσία em Atos 1:8 (leia para entender)

"A IGREJA. A PALMEIRA E O EXEMPLO DE DÉBORA!"

AMIZADE: “PURÁ É A PURA!”