O PALCO PREFERIDO DA IGNORÂNCIA É A CONVICÇÃO
Existe uma imagem profundamente equivocada que a maioria das pessoas conserva acerca da ignorância. Imagina-se que ela habite a hesitação, a dúvida, a incerteza do espírito que tateia no escuro. Imagina-se que o ignorante seja aquele que confessa não saber, que admite a insuficiência do próprio entendimento, que se vê obrigado a perguntar. Mas a realidade é quase sempre a inversa. A ignorância raramente se apresenta com o rosto da dúvida. O seu disfarce favorito é a certeza.
Sócrates compreendeu isso há mais de dois milênios, quando declarou que sua sabedoria consistia apenas em saber que nada sabia. A frase tornou-se tão repetida que perdeu o seu escândalo original. Porque aquilo que Sócrates descobriu não foi a vastidão da ignorância humana, mas algo muito mais perturbador: que o verdadeiro obstáculo ao conhecimento não é a ausência de respostas, mas a ilusão de já possuí-las.
A dúvida é humilde. A convicção, não raro, é arrogante.
Quem duvida continua procurando. Quem está convencido interrompe a busca.
O ignorante não é necessariamente aquele que desconhece os fatos. É aquele que transformou uma pequena porção de conhecimento numa fortaleza inexpugnável. É aquele que ergueu um muro em torno de uma conclusão e passou a confundir esse muro com o horizonte. Não vive na ausência de informações, mas na ausência de abertura.
Por isso a história humana está repleta de certezas que sobreviveram durante séculos apenas para se revelarem absurdas. Houve homens absolutamente convencidos de que o Sol girava em torno da Terra. Houve homens absolutamente convencidos da inferioridade natural de povos inteiros. Houve homens absolutamente convencidos de que a ciência, a filosofia ou a religião haviam chegado às suas formas definitivas. A convicção não protege contra o erro. Frequentemente, ela o preserva.
Montaigne observava que nada acreditamos com tanta firmeza quanto aquilo que menos compreendemos. A observação continua atual porque a mente humana possui uma estranha tendência para converter familiaridade em verdade. Repetimos uma ideia tantas vezes que acabamos confundindo a repetição com evidência. O hábito veste-se de conhecimento. A opinião veste-se de sabedoria. A certeza veste-se de inteligência.
E então nasce uma das tragédias intelectuais mais comuns da existência: a incapacidade de aprender.
Aprender exige uma pequena morte. Exige abandonar versões anteriores de si mesmo. Exige reconhecer que aquilo que ontem parecia sólido talvez não passasse de uma construção provisória. Mas o orgulho resiste. O ego prefere preservar uma identidade equivocada a admitir uma verdade incômoda. Para muitos, estar errado é mais suportável do que parecer errado.
Nietzsche compreendeu que as convicções podem ser inimigas mais perigosas da verdade do que as próprias mentiras. O mentiroso ainda distingue, em algum nível, a verdade da falsidade. O homem dominado pela convicção já não precisa mentir. Ele acredita. E justamente por acreditar, torna-se impermeável à correção.
Talvez por isso os grandes pensadores tenham cultivado uma relação tão íntima com a dúvida. Não porque amassem a incerteza em si mesma, mas porque sabiam que toda verdade autêntica nasce da disposição de questionar aquilo que parece evidente. A mente verdadeiramente inteligente não é aquela que acumula certezas, mas aquela que conserva a capacidade de revisão.
Há uma diferença fundamental entre possuir convicções e ser possuído por elas.
As primeiras podem orientar a vida.
As segundas aprisionam o pensamento.
Eis a ironia que acompanha a condição humana desde os seus primórdios: quanto menos sabemos, mais facilmente acreditamos ter compreendido tudo. Quanto mais compreendemos, mais percebemos a extensão daquilo que nos escapa.
O ignorante não habita a escuridão da dúvida.
Habita a falsa luz da certeza.
Porque o palco preferido da ignorância nunca foi a pergunta.
Sempre foi a convicção.
Oliver Harden
Subscrito
Bonani

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