O QUE É A MEMÓRIA?
A pergunta parece simples, mas apenas porque nos habituámos a conviver com o mistério sem o interrogar. Conheço uma resposta possível, embora suspeite que ela seja insuficiente.
A memória é caminhar por corredores que já não existem, é escutar vozes que o mundo extinguiu e que, no entanto, continuam a falar dentro de nós com uma nitidez desconcertante. É descobrir que o passado não passou, apenas mudou de morada. É encontrar, numa tarde qualquer, o perfume de uma casa demolida há décadas. É recordar o rosto de alguém com mais precisão do que recordamos a nós mesmos. É a persistência do ausente.
É abrir um livro e encontrar entre as páginas uma versão antiga de si mesmo, um estranho que usava o seu nome e acreditava em coisas que já não acredita. É perceber que os mortos continuam vivendo em nós através de gestos involuntários, de expressões herdadas, de medos cuja origem esquecemos. É carregar um cemitério invisível sob a pele.
A memória é também uma forma peculiar de exílio. Porque aquilo que recordamos não pode regressar. Podemos revisitar uma cidade, mas não a tarde que nela vivemos. Podemos reencontrar uma fotografia, mas não o instante que ela aprisionou. O passado é o único país ao qual pertencemos plenamente e do qual estamos banidos para sempre.
O QUE É O TEMPO?
É a resposta que o universo dá à memória.
É a lenta acumulação de ausências. É o escultor invisível que desgasta montanhas, impérios, idiomas e rostos com a mesma paciência indiferente. É aquilo que transforma promessas em recordações, projetos em ruínas e futuros em biografias.
É observar as mãos e reconhecer nelas os sinais de uma história que o espelho não consegue narrar. É descobrir que a infância não acabou, apenas se afastou para uma distância inalcançável. É compreender que envelhecer não consiste em somar anos, mas em acumular fantasmas.
O tempo é uma biblioteca que arde sem chamas. Cada segundo consome uma página, cada dia reduz um volume a cinzas, e, no entanto, continuamos lendo, como se a leitura pudesse interromper o incêndio.
Talvez por isso a condição humana possua algo de trágico e algo de sublime. Somos criaturas que sabem que tudo lhes será retirado, mas que continuam amando. Sabem que tudo será esquecido, mas continuam criando. Sabem que caminham para a dissolução, mas continuam atribuindo significado aos seus passos.
Eis o nosso destino mais estranho: viver cercados pela transitoriedade e, ainda assim, desejar o eterno.
Porque, no fundo, a memória é uma recusa da morte.
E o tempo, uma longa negociação com ela.
Oliver Harden
Subscrito
Bonani

Comentários
Postar um comentário
Escreva aqui seu comentário e enriqueça ainda mais o Blog com sua participação!