A SOLIDÃO ACOMPANHADA(Quem não sabe estar consigo não sabe estar com ninguém)
A SOLIDÃO ACOMPANHADA
Há uma solidão que se conhece pelo silêncio, pela ausência de vozes e pelo vazio das cadeiras. Essa solidão é honesta. Ela não dissimula, não promete o que não pode dar, não estende a mão apenas para a retirar. Quem a conhece sabe ao menos onde está: do lado de fora, olhando para dentro, sem ilusão de entrada.
Mas existe uma outra forma, e esta é a que verdadeiramente destrói. É a solidão que se faz dentro de um abraço, que cresce em silêncio no meio de uma conversa, que floresce com toda a sua crueldade precisamente no momento em que alguém nos sorri. Essa solidão não avisa. Instala-se como inquilino ilegal numa casa que julgávamos habitada, e só a percebemos quando já ocupou todos os cômodos.
Confundimos, há muito, a presença com a pessoa. Pensamos que o antídoto da solidão é alguém, um corpo próximo, um nome a pronunciar, uma voz que responde. E assim enchemos as nossas horas com companhia como quem enche um copo com água turva, acreditando que matar a sede é suficiente para se sentir limpo. Não é. A solidão não recua perante os rostos. Recua, se é que recua, perante a presença, que é coisa inteiramente diferente.
A presença não é a ocupação de um espaço. É a habitação de um instante, a disponibilidade de estar no mesmo lugar não apenas com o corpo mas com aquilo que, por falta de palavra melhor, chamamos de alma, esse resíduo de atenção que nos resta quando cessamos de calcular e de performar. Quando dois seres se encontram em presença, não há solidão possível, porque o encontro não admite vazio. Mas quando dois seres se juntam sem presença, sem essa entrega mútua ao momento comum, o que resulta não é companhia. É apenas a adição de duas solidões que coexistem sem jamais se tocarem.
Pascal sabia que toda a desgraça do homem provinha de uma única coisa: a incapacidade de ficar em repouso num quarto. Mas enganar-se-ia quem concluísse que a solução era, portanto, nunca estar só. O repouso que Pascal reclamava não era o repouso da ausência de outros. Era o repouso da presença consigo mesmo, essa forma de solidão fecunda que é condição de toda a companhia genuína. Quem não sabe estar consigo não sabe estar com ninguém. Leva o próprio vazio para onde quer que vá, e esse vazio contagia, e à sua volta multiplica-se a solidão como espelhos que se refletem mutuamente sem que haja entre eles uma única janela para o exterior.
O Existencialismo, na sua brutalidade esclarecedora, nomeou esta condição com precisão implacável. O outro, dizia Sartre, é o inferno, não porque a sua existência seja maldição, mas porque a sua presença nos confronta com o que somos, e essa confrontação, quando não é suportada com coragem, transforma-se em fuga. E a fuga do outro para dentro do outro, essa manobra de usar a companhia para escapar à consciência de si, é a forma mais requintada e mais destruidora de solidão. Estar com alguém para não estar consigo é a confissão de que se abandonou a si mesmo antes de qualquer abandono alheio.
É por isso que a pior solidão não tem rosto de ausência. Tem rosto de presença falsa, de companhia que não comparece, de intimidade que permanece na superfície das palavras sem jamais descer ao que nelas se cala. Há casais que vivem décadas numa mesma solidão partilhada, tão habituados ao vazio entre eles que já não o percebem, como quem deixa de ouvir o ruído de um motor que nunca para. Há amizades feitas de frequência sem profundidade, de encontros que são, no fundo, fugas coordenadas. Há famílias inteiras que se reúnem à volta de uma mesa e comem em solidão absoluta, separadas por tudo o que nunca foi dito e já não poderá ser.
Não basta, pois, a pessoa. É necessária a presença. E a presença exige o que a nossa época mais teme exigir: a vulnerabilidade de estar verdadeiramente ali, sem armadura de ironia, sem o escudo da superficialidade, sem a saída de emergência da distração. Exige que se renuncie, pelo menos por um instante, à gestão cuidadosa da própria imagem, e que se permita ser visto não como se quer aparecer, mas como se é. Essa renúncia é custosa. Por isso há tanta companhia e tão pouca presença. Por isso a solidão acompanhada é a epidemia silenciosa do nosso tempo.
A solidão que se resolve é sempre a que se admite. Quem a reconhece no silêncio de um quarto vazio tem ao menos a clareza do diagnóstico. Quem a nega no ruído de mil companhias vive num engano que se aprofunda a cada aplauso, a cada copo erguido, a cada riso que ecoa sem ter nascido de nada que importe.
Há uma dignidade severa na solidão confessada. Há uma tragédia sem nome na solidão disfarçada de festa.
Oliver Harden
Subscrito
Bonani

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