A FALSIDADE HUMANA
Há uma mentira que atravessa os séculos com a mesma persistência das pragas e das guerras: a mentira de que os homens desejam a verdade. Não desejam. Admitem-na apenas enquanto ela lhes serve. Procuram-na enquanto imaginam que ela confirmará aquilo que já pensam. Reverenciam-na enquanto ela não exige nenhum sacrifício. Mas basta que a verdade ameace uma conveniência, uma vaidade ou uma imagem cuidadosamente construída, e aquilo que chamavam de amor à verdade revela-se apenas amor a si mesmos.
O homem é talvez a única criatura capaz de fabricar máscaras e depois esquecer que as fabricou. Não mente apenas aos outros. Isso seria simples demais. Mente principalmente a si próprio. Constrói uma narrativa confortável sobre quem é, repete-a durante anos e termina por acreditar nela com a fé de um fanático religioso. Chama egoísmo de amor-próprio, covardia de prudência, inveja de senso de justiça, ressentimento de consciência moral. E quanto mais refinada é a inteligência, mais sofisticadas se tornam as justificativas.
Dostoiévski compreendeu algo que poucos compreenderam: os homens não temem ser maus. Temem descobrir que não são tão bons quanto imaginavam. O criminoso suporta a culpa com mais facilidade do que o hipócrita suporta o desmascaramento. A culpa pode ser escondida. A verdade sobre si mesmo, não.
Por isso a falsidade humana raramente se apresenta sob a forma grosseira da mentira deliberada. Ela surge disfarçada de virtude. Os indivíduos mais perigosos não são aqueles que confessam seus vícios, mas aqueles que transformam seus vícios em bandeiras morais. São os que exigem honestidade dos outros enquanto ocultam suas próprias deformidades. Os que pregam compaixão enquanto cultivam desprezo. Os que defendem a justiça apenas quando ela pune os seus adversários.
A civilização moderna ampliou esse fenómeno a uma escala inédita. Nunca houve tantas oportunidades para representar um personagem. Cada perfil tornou-se um palco. Cada fotografia uma declaração cuidadosamente calculada. Cada opinião uma peça de marketing existencial. O indivíduo já não pergunta quem é. Pergunta apenas como deseja ser percebido.
Mas a tragédia não reside na capacidade de enganar os outros. A tragédia está no facto de que, depois de anos representando, muitos já não sabem distinguir o ator da pessoa. A máscara cresce sobre o rosto até tornar-se rosto. E quando isso acontece, a mentira alcança sua forma mais perfeita: deixa de ser percebida como mentira.
Talvez seja por isso que a honestidade seja tão rara. Não porque exija inteligência, mas porque exige coragem. É preciso uma coragem quase insuportável para olhar para dentro de si e reconhecer que parte daquilo que chamamos de caráter é apenas vaidade organizada, que parte daquilo que chamamos de bondade é interesse bem vestido e que parte daquilo que chamamos de autenticidade é apenas uma atuação que se tornou hábito.
O homem não é falso porque mente. O homem mente porque é falso. E a falsidade mais profunda não está naquilo que ele esconde dos outros, mas naquilo que esconde de si mesmo.
Oliver Harden
Subscrito
Bonani

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