AS PALAVRAS SE RENDEM AO SILÊNCIO

 



O ser humano depositou nas palavras uma confiança quase ilimitada. Com elas construiu impérios, formulou leis, escreveu poemas, declarou amores e iniciou guerras. As palavras são, talvez, a mais sofisticada das ferramentas criadas pela consciência para estabelecer pontes entre mundos interiores. Contudo, existe um limite invisível além do qual a linguagem começa a fracassar. Há regiões da experiência humana onde as palavras não iluminam, apenas circulam ao redor do indizível. E é nesse ponto que elas se rendem ao silêncio.


Os grandes acontecimentos da existência raramente cabem inteiramente no vocabulário. A morte de alguém amado, o nascimento de um filho, uma perda irreparável, uma revelação íntima, uma experiência estética avassaladora ou um sofrimento que ultrapassa as medidas habituais da alma são eventos que excedem a capacidade descritiva da linguagem. Podemos falar sobre eles, mas jamais conseguimos transferi-los integralmente para o outro. Algo sempre permanece inacessível, oculto, intraduzível.


Talvez por isso os momentos mais profundos da vida sejam frequentemente silenciosos. Diante de um caixão, diante de um céu estrelado, diante de uma despedida definitiva ou de um amor que dispensa explicações, o homem percebe que as palavras podem se transformar em ruído. Não porque sejam inúteis, mas porque se tornam pequenas diante da magnitude daquilo que procuram representar.


O silêncio, nesses momentos, não é ausência de comunicação. É uma forma superior de linguagem. Ele não explica, mas revela. Não argumenta, mas permite compreender. Há silêncios que dizem mais sobre a dor do que qualquer discurso, mais sobre a ternura do que qualquer declaração, mais sobre a verdade do que bibliotecas inteiras.


A civilização contemporânea, entretanto, parece desconfiar do silêncio. Vivemos cercados por opiniões instantâneas, comentários incessantes e explicações compulsivas. Há uma necessidade quase neurótica de preencher cada espaço vazio com palavras. Como se o silêncio fosse uma falha a ser corrigida, quando talvez seja justamente o lugar onde a experiência humana alcança sua maior profundidade.


Os antigos místicos compreenderam algo que a modernidade frequentemente esquece: nem toda verdade pode ser dita. Algumas devem ser contempladas. Há realidades que só se tornam visíveis quando cessamos o esforço de descrevê-las. Como quem tenta observar o reflexo da lua sobre um lago, apenas para perceber que a imagem se torna mais nítida quando as águas param de se agitar.


Talvez a maturidade intelectual consista também em reconhecer os limites da linguagem. Saber falar é uma virtude. Saber calar, muitas vezes, é sabedoria. Porque há situações em que as palavras não encontram derrota no silêncio. Encontram o seu destino.


Oliver Harden

Subscrito

Bonani

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