O fio estreito que separa o ser do nada.
Tornar-se consciente de si mesmo, este é, talvez, o mais sublime e o mais trágico dos destinos reservados ao ser humano. Pois não há dor mais aguda que a de ver-se nu diante do espelho do próprio espírito, despojado de ilusões, sem máscaras que suavizem a verdade, sem véus que ocultem o abismo que habita sob a superfície do cotidiano.
Os animais vivem, e vivem sem que a própria vida se lhes apresente como problema. O ser humano, porém, sabe que vive, e é nesse saber, e não na vida em si, que reside seu suplício. Não lhe basta existir como folha ao vento ou pedra na montanha, entregue ao curso das coisas sem jamais perguntar por ele. O homem pensa, recorda, projeta. Interroga-se, julga-se, nega-se, e às vezes se odeia pelo que descobre. A consciência é uma lâmina que corta para dentro, é a luz que ilumina, mas também a que queima, é o dom funesto de ver com profundidade aquilo que a maioria prefere manter na penumbra da distração.
Na alvorada da consciência, o homem se separa do mundo natural, rompe com a paz dos instintos, com a beatitude da ignorância. Como Adão após o fruto, passa a saber-se nu, frágil, finito, e a partir desse momento inaugural jamais poderá repousar por completo. Está condenado a pensar, a rememorar as escolhas que fez e as que evitou, a antecipar um futuro que nunca se apresenta por inteiro, a ponderar os próprios atos como quem julga um estranho, a carregar o peso das perdas e das possibilidades não vividas. A consciência liberta das correntes da ignorância, mas prende nas celas da angústia, e nisso reside seu paradoxo mais cruel, o de que a mesma faculdade que nos torna humanos é a que nos impede de habitar o presente com a simplicidade de um animal ou a serenidade de uma pedra.
Schopenhauer já advertia que viver é sofrer, e que conhecer é multiplicar esse sofrimento, pois a vontade cega que nos move não encontra na razão senão um espelho mais nítido de sua própria insaciedade. A consciência é a chama que, ao iluminar os contornos da existência, revela também suas sombras, seus limites, suas contradições. Saber-se passageiro em um corpo fadado à decadência, saber-se portador de desejos que o mundo jamais poderá satisfazer plenamente, eis a raiz da dor ontológica que marca o humano desde que aprendeu a dizer eu.
Kierkegaard chamaria isso de angústia diante da liberdade, o vertigo de quem descobre que pode escolher e que, portanto, é responsável até por aquilo que não escolheu evitar. E é precisamente aí, no vertigo, que a consciência revela sua dupla face, pois o mesmo abismo que desespera é também o único terreno onde algo como uma decisão autêntica se torna possível. Não há liberdade sem esse vazio sob os pés.
Mas é também nesse sofrimento que repousa a grandeza do ser. Só quem se sabe vulnerável pode ser compassivo. Só quem se conhece finito pode buscar o eterno, ainda que como quem busca uma miragem sabendo que é miragem. Só quem sofre o peso da própria existência pode aspirar à transcendência, pois a transcendência não é fuga da dor, é sua transfiguração. O sofrimento da consciência não é castigo, é chamado, chamado a tornar-se mais que um mecanismo biológico, a elevar-se acima da mera repetição instintiva, a transformar a dor em linguagem, em arte, em pensamento, isto é, a transformar aquilo que nos dilacera naquilo que nos distingue.
Simone Weil dizia que a dor, quando plenamente atravessada e não apenas suportada, se converte em clarividência. E talvez seja isso, tornar-se consciente de si é, paradoxalmente, o maior dos sofrimentos e a única via possível para a verdadeira lucidez. Quem não sofreu a si mesmo, profundamente, jamais se conheceu, e quem jamais se conheceu vagueia pelas sendas da existência como uma sombra sem corpo, como um nome sem alma, repetindo gestos alheios como se fossem seus.
Assim, embora o saber de si doa como ferida aberta no tempo, é nesse saber que pulsa a essência da humanidade. É nesse olhar voltado para dentro, ainda que marejado, que nascem as perguntas que importam. E são essas perguntas, mesmo quando permanecem sem resposta, que sustentam a dignidade de continuar, conscientes, caminhando sobre o fio estreito que separa o ser do nada.
Oliver Harden
Subscrito
Bonani

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