A maldade bebe a maior parte do veneno que ela produz

 


Há uma antiga suspeita, que atravessa os moralistas franceses e ressurge, com outro vocabulário, em Nietzsche, de que o mal nunca é uma transação limpa entre agressor e vítima, mas um comércio em que o próprio vendedor consome grande parte da mercadoria que fabrica. A frase que dá título a este ensaio não é, portanto, uma consolação piedosa para quem sofreu injustiça, do tipo "a vida se encarrega de punir os maus", crença que a experiência desmente com uma regularidade quase insultuosa. É antes uma tese sobre a estrutura interna do ato malicioso, sobre o que ele exige de quem o pratica antes mesmo de atingir quem o padece.


Convém começar recusando a versão ingênua. Não é verdade, empiricamente, que o mal se volte sempre contra seu autor em forma de punição visível, de ruína material, de solidão social. Muitos algozes prosperam, dormem bem, são sepultados com honras. Dostoiévski sabia disso melhor do que ninguém, e por isso não colocou na boca de seus grandes criminosos, Raskólnikov à parte, nenhuma confissão espontânea de sofrimento; o sofrimento, quando vem, vem por outra porta, mais estreita e menos visível do que a da justiça poética. A porta é esta: para produzir veneno, é preciso primeiro fabricá-lo dentro de si, guardá-lo em algum órgão da alma, mantê-lo em temperatura e concentração suficientes para que, no momento da ação, ele possa ser despejado sobre outrem. Ora, nenhum recipiente contém veneno sem que suas próprias paredes sejam corroídas pelo contato prolongado. A maldade, antes de ser gesto, é armazenamento. E é no armazenamento, não na punição posterior, que reside o primeiro e mais consistente pagamento que o malfeitor faz a si mesmo.


Nietzsche, na Genealogia da Moral, descreve o ressentimento como uma reação que, incapaz de descarregar-se imediatamente, se torna criativa, inventa valores, imagina vinganças. O que ele não deixa de notar, com sua crueldade analítica de sempre, é que essa criatividade tem um custo fisiológico e espiritual: o homem do ressentimento é descrito como alguém que se intoxica com sua própria reação, que não consegue esquecer, e para quem a incapacidade de esquecer é, ela mesma, uma ferida contínua. Note-se a inversão: não é a vítima do ressentimento que carrega a ferida mais funda, é o ressentido. O veneno que ele arquiteta para o outro precisa primeiro atravessar seus próprios tecidos, como um medicamento mal dosado que lesiona o órgão que o sintetiza antes de alcançar seu alvo terapêutico, ou neste caso, seu alvo destrutivo.


Há uma dimensão temporal nisso que merece ser isolada. A maldade instantânea, o tapa impulsivo, a ofensa dita em um segundo de fúria, tem uma economia diferente daquela da maldade deliberada, cultivada, planejada com paciência. É esta segunda espécie que interessa mais de perto ao nosso argumento, porque ela exige do agente uma espécie de convivência íntima e prolongada com sua própria intenção destrutiva. Quem planeja arruinar a reputação de um rival, quem arquiteta uma humilhação, quem cultiva por meses a antecipação de um dano a ser infligido, esse alguém precisa habitar, durante todo esse período de incubação, o mesmo território mental onde o veneno é produzido. Não existe destilaria sem destilador presente. E o destilador, por definição, respira os vapores daquilo que destila. Kierkegaard, ao descrever o desespero como uma relação doente do eu consigo mesmo, dá-nos o vocabulário exato para isto: o mal deliberado não é primariamente uma relação com o outro, é primariamente uma relação do eu consigo, uma torção interna, e só secundariamente um gesto que se projeta para fora. A vítima externa é quase um efeito colateral de uma doença que já se instalara antes, no sujeito, como condição de possibilidade do próprio ato.


Isto explica um fenômeno clínico e literário bem conhecido, o da desproporção entre a intensidade da maldade cometida e a satisfação obtida com ela. Se a maldade fosse de fato uma transferência limpa de dano, do agente para a vítima, seria de esperar que, uma vez cometida, o agente experimentasse alívio, ou ao menos neutralidade. O que se observa, com frequência inquietante, é o contrário: a necessidade de repetir, de intensificar, de buscar nova vítima, como o viciado que precisa de dose maior porque a anterior já não produz o efeito. Este padrão, que a psicologia contemporânea descreveria em termos de habituação e tolerância, tem uma tradução moral precisa: o veneno já não satura o destilador na mesma medida, e por isso ele precisa produzir mais, o que significa, invertendo a lógica ingênua, que ele precisa se intoxicar mais para conseguir intoxicar o outro na mesma proporção de antes. A escalada da crueldade não é sinal de poder crescente sobre a vítima, é sinal de tolerância crescente do próprio agente ao veneno que ele mesmo segrega.


Cabe aqui uma objeção séria, que não deve ser varrida para debaixo do tapete por conveniência retórica: e os que praticam o mal sem culpa, sem remorso, sem qualquer sinal de erosão interna, os psicopatas clínicos, os cínicos bem-sucedidos, os tiranos que morrem na cama? Não seria a tese deste ensaio uma forma disfarçada da mesma consolação ingênua que recusamos no início, apenas trocando o castigo externo por um castigo interno igualmente hipotético? A resposta exige precisão. A tese não afirma que todo malfeitor sofre um remorso consciente, articulável, sentido como dor. Afirma algo mais modesto e, por isso mesmo, mais defensável: que a capacidade para o mal deliberado e sustentado no tempo pressupõe uma diminuição real da complexidade afetiva do agente, um empobrecimento daquilo que ele consegue sentir pelos outros e, por extensão contígua, daquilo que ele consegue sentir por si mesmo. O psicopata que não sofre não é a exceção que refuta a regra, é o caso extremo que a confirma: ele não sofre porque já pagou o preço antes, na forma de uma atrofia anterior da própria vida afetiva, atrofia sem a qual o mal sistemático seria psicologicamente insustentável. Ele bebeu o veneno de uma só vez, por assim dizer, e o que resta é a anestesia, não a ausência de custo. Anestesia, aliás, é a palavra certa, porque descreve exatamente aquilo que se perdeu, a saber, a sensibilidade, e a perda de sensibilidade é o oposto de uma vitória, é uma mutilação que o agente inflige a si mesmo antes de infligir qualquer coisa a outrem.


Byung-Chul Han observou, a propósito de fenômenos bem diversos, que certas formas de violência contemporânea já não vêm do outro, mas de dentro do próprio sujeito, sob a forma de autoexploração e autoagressão disfarçadas de liberdade. Há algo análogo, embora não idêntico, na estrutura da maldade interpessoal: o agente que planeja o dano ao outro precisa, para isso, agredir primeiro a parte de si que ainda reconheceria o outro como digno de consideração moral. É preciso silenciar essa parte, neutralizá-la, convencê-la, através de racionalizações cada vez mais elaboradas, de que a vítima merece o que virá. Ora, esse trabalho de convencimento interno não é gratuito, ele deixa marcas na arquitetura da consciência, cria hábitos de autoengano que depois se generalizam para outras áreas da vida, corroem a capacidade do sujeito de ser honesto consigo mesmo em qualquer domínio, não apenas naquele em que a maldade foi praticada. O malfeitor perito acaba por se tornar, também, um péssimo conhecedor de si, porque toda a maquinaria de justificação que ele construiu para poder agir contra o outro passa a operar constantemente, inclusive quando não há vítima à vista, inclusive quando o único enganado, finalmente, é ele mesmo.


Resta uma última camada, talvez a mais decisiva, que diz respeito não ao ato isolado, mas ao caráter que dele resulta. Aristóteles ensinava que a virtude se adquire pela prática repetida de atos virtuosos, que formam hábito, e o hábito forma caráter. A lógica é simétrica e implacável para o vício: quem pratica a maldade repetidamente não apenas produz dano externo, produz também, e cumulativamente, um caráter malicioso, que é a forma mais duradoura e mais cara de todo o veneno que uma vida pode ingerir. Diferentemente do dano causado à vítima, que pode em muitos casos ser reparado, superado, integrado numa narrativa de resiliência, o caráter que se formou no agente através da prática do mal tende a acompanhá-lo, como uma segunda pele, para todos os relacionamentos futuros, para toda experiência de intimidade, para toda possibilidade de ser amado sem desconfiança e de confiar sem cálculo. A vítima, com frequência, refaz sua vida. O algoz carrega, para sempre, o instrumento com que a maldade foi cometida, porque esse instrumento é ele mesmo.


Talvez seja esta, afinal, a formulação mais rigorosa da tese: a maldade não escolhe entre envenenar o outro e envenenar a si mesma, como se fossem operações alternativas ou sequenciais. Ela faz as duas coisas na mesma operação, porque o veneno não é uma substância que possa ser transferida sem perda, como líquido de um recipiente a outro, mas algo mais próximo de uma queima, um processo em que o combustível se consome no próprio ato de produzir a chama que alcançará o alvo externo. A vítima recebe a luz, ou o calor, ou a destruição que a chama provoca. Mas o combustível queimado, esse fica para sempre do lado de quem acendeu o fogo. Não há maldade que se pratique de graça. O preço é cobrado antes mesmo da entrega, e é cobrado, sobretudo, em uma moeda que a própria contabilidade da vingança jamais soube registrar: a progressiva incapacidade do agente de continuar sendo, para si próprio, alguém que mereça respeito.


Oliver Harden

Subscrito 

Bonani 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

δύναμις e ἐξουσία em Atos 1:8 (leia para entender)

"A IGREJA. A PALMEIRA E O EXEMPLO DE DÉBORA!"

AMIZADE: “PURÁ É A PURA!”