Mel Gibson exagerou nos flagelos de Jesus?

 


Sim! 

Mel Gibson exagerou visual e teologicamente na duração e na coreografia do açoitamento, embora a brutalidade histórica real da flagelação romana fosse, de facto, devastadora. Por outro lado, o texto dos Evangelhos não acentua nem detalha esses flagelos, mencionando-os de forma extremamente breve e sóbria.

O Exagero de Mel Gibson vs. A Realidade Histórica

Mel Gibson baseou grande parte da cena não nos Evangelhos, mas nas visões místicas da freira Ana Catarina Emmerich (século XIX).

Ana Catarina Emmerich (1774–1824) foi uma freira agostiniana, mística e visionária  alemã do início  do século XIX. Ficou mundialmente famosa pelas suas visões detalhadas da vida e da paixão de Jesus Cristo, que foram registadas pelo escritor Clemens Brentano e serviram de base para o filme A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson. 
Relatou ter recebido os estigmas de Cristo e, durante um longo período, afirmou alimentar-se apenas da Eucaristia.
Foi declarada beata pela Igreja Católica pelo Papa João Paulo II em outubro de 2004

Dupla flagelação: 

No filme, Jesus é espancado primeiro com varas e depois com o flagrum (o chicote romano com pedaços de osso e chumbo), tanto nas costas como na parte frontal do corpo. Historicamente, a flagelação romana ocorria numa única sessão focada nas costas, nádegas e pernas.

Volume de sangue: 

Críticos e historiadores médicos apontam que o filme mostra uma perda de sangue superior à capacidade do corpo humano. Se um prisioneiro sofresse aquela quantidade de lacerações profundas antes de carregar a cruz, morreria de choque hipovolémico (perda de sangue) no próprio pilar, sem conseguir caminhar.

Intenção romana: 

O objetivo do açoitamento antes da execução era enfraquecer o réu, mas não matá-lo. Os soldados sabiam dosear os golpes para que a vítima sobrevivesse até à cruz, onde ocorreria a verdadeira morte pública e exemplar. O sadismo prolongado do filme ultrapassa essa lógica militar.

 O Contexto dos Evangelhos: Sóbrio e Sem Ênfase:

Ao contrário do filme, que dedica quase 10 minutos de ecrã ao sofrimento gráfico, os Evangelhos tratam o açoitamento com um minimalismo impressionante. Apenas uma palavra: Nos textos originais em grego, os evangelistas usam apenas um verbo para descrever o ato. Por exemplo, em Mateus 27:26 e Marcos 15:15, diz-se simplesmente: "...e, tendo mandado açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado".

Sem descrições visuais: 

Nenhum dos quatro Evangelhos descreve o sangue, a carne exposta, o tipo de chicote ou o número de golpes.

Por que os Evangelhos são tão breves? 

Na antiguidade romana, a flagelação era um evento comum e do conhecimento geral dos leitores. Os evangelistas não precisavam de descrever a violência porque o público da época sabia perfeitamente o quão terrível ela era. Além disso, o foco teológico dos Evangelhos está no significado da identidade, propósito salvífico  de Jesus e na sua ressurreição, e não no apelo ao choque visual ou ao horror anatómico.

Bonani

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