Mel Gibson exagerou nos flagelos de Jesus?
Sim!
Mel Gibson exagerou visual e teologicamente na duração e na coreografia do açoitamento, embora a brutalidade histórica real da flagelação romana fosse, de facto, devastadora. Por outro lado, o texto dos Evangelhos não acentua nem detalha esses flagelos, mencionando-os de forma extremamente breve e sóbria.
O Exagero de Mel Gibson vs. A Realidade Histórica
Mel Gibson baseou grande parte da cena não nos Evangelhos, mas nas visões místicas da freira Ana Catarina Emmerich (século XIX).
Dupla flagelação:
No filme, Jesus é espancado primeiro com varas e depois com o flagrum (o chicote romano com pedaços de osso e chumbo), tanto nas costas como na parte frontal do corpo. Historicamente, a flagelação romana ocorria numa única sessão focada nas costas, nádegas e pernas.
Volume de sangue:
Críticos e historiadores médicos apontam que o filme mostra uma perda de sangue superior à capacidade do corpo humano. Se um prisioneiro sofresse aquela quantidade de lacerações profundas antes de carregar a cruz, morreria de choque hipovolémico (perda de sangue) no próprio pilar, sem conseguir caminhar.
Intenção romana:
O objetivo do açoitamento antes da execução era enfraquecer o réu, mas não matá-lo. Os soldados sabiam dosear os golpes para que a vítima sobrevivesse até à cruz, onde ocorreria a verdadeira morte pública e exemplar. O sadismo prolongado do filme ultrapassa essa lógica militar.
O Contexto dos Evangelhos: Sóbrio e Sem Ênfase:
Ao contrário do filme, que dedica quase 10 minutos de ecrã ao sofrimento gráfico, os Evangelhos tratam o açoitamento com um minimalismo impressionante. Apenas uma palavra: Nos textos originais em grego, os evangelistas usam apenas um verbo para descrever o ato. Por exemplo, em Mateus 27:26 e Marcos 15:15, diz-se simplesmente: "...e, tendo mandado açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado".
Sem descrições visuais:
Nenhum dos quatro Evangelhos descreve o sangue, a carne exposta, o tipo de chicote ou o número de golpes.
Por que os Evangelhos são tão breves?
Na antiguidade romana, a flagelação era um evento comum e do conhecimento geral dos leitores. Os evangelistas não precisavam de descrever a violência porque o público da época sabia perfeitamente o quão terrível ela era. Além disso, o foco teológico dos Evangelhos está no significado da identidade, propósito salvífico de Jesus e na sua ressurreição, e não no apelo ao choque visual ou ao horror anatómico.
Bonani
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