Raul lendo 1984, de George Orwell e a I.A (um texto de Scarlet Seixas, filha de Raul Seixas)



Para quem está no Brasil e talvez ainda não esteja acompanhando o que está acontecendo aqui nos Estados Unidos, quero compartilhar algo que, pessoalmente, está começando a me assustar.

Uma enorme infraestrutura tecnológica está sendo construída diante dos nossos olhos.
Hoje, existem mais de 120 mil câmeras da Flock Safety espalhadas pelos Estados Unidos. Elas não são simplesmente câmeras comuns. Utilizam tecnologia automatizada para registrar placas, características dos veículos, localização, data e horário. Essas informações podem ser pesquisadas posteriormente por autoridades. A própria empresa descreve um sistema no qual é possível pesquisar veículos por características como marca, cor e tipo.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos vivem uma expansão gigantesca de data centres, impulsionada pela inteligência artificial, a ponto de o crescimento da demanda por energia já estar obrigando operadores da rede elétrica a repensar sua infraestrutura.
E nós, seres humanos, estamos aprendendo a conviver e conversar com a inteligência artificial em tempo real.
É isso que me faz pensar.
Não estou dizendo que existe uma grande conspiração secreta coordenando tudo isso. Estou olhando para aquilo que já está acontecendo diante de nós.
Estamos aprendendo a falar com máquinas enquanto as máquinas estão aprendendo a interpretar quantidades cada vez maiores de informações sobre o mundo físico.
Câmeras.
Bancos de dados.
Inteligência artificial.
Data centres.
Redes interligadas.
Separadamente, cada tecnologia pode ser explicada como segurança, eficiência ou progresso. Juntas, porém, elas levantam uma pergunta muito maior:
Que tipo de sociedade estamos construindo?
E então volto a uma fotografia do meu pai que sempre chamou minha atenção: Raul lendo 1984, de George Orwell.
Hoje essa imagem me atinge de outra maneira.
1984 não era simplesmente uma história sobre câmeras. Era um alerta sobre vigilância, concentração de informação, controle e sobre o que pode acontecer quando uma sociedade permite que determinadas estruturas se tornem normais antes de compreender completamente o poder que entregou a elas.
Não posso dizer que meu pai estava “prevendo” a tecnologia de 2026.
Mas posso dizer que ele estava interessado nessas ideias e nesses alertas.
E olhando aquela fotografia hoje, é impossível para mim não pensar:
Pai, olha onde chegamos.
A tecnologia pode fazer coisas extraordinárias. A inteligência artificial também.
Mas progresso tecnológico sem discussão sobre liberdade, privacidade, limites e responsabilidade não é uma conversa que podemos deixar somente nas mãos das empresas e dos governos.
Porque a parte que me assusta não é simplesmente uma câmera olhando para uma estrada.
É a possibilidade de, algum dia, existir tecnologia suficiente para juntar milhares de pequenos pontos e transformar os movimentos de uma pessoa em uma história pesquisável.
George Orwell imaginou um mundo em que a vigilância estava em toda parte.
Nós estamos construindo um mundo em que ela pode simplesmente fazer parte da infraestrutura.
E talvez a pergunta mais importante seja feita antes de nos acostumarmos com isso:
Até onde estamos dispostos a permitir que vá?

Subscrito

Bonani

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