O juízo como confissão




Toda opinião nasce suja. Não o digo como acusação, mas como diagnóstico, pois nenhuma consciência julga a partir do nada, ex nihilo, como um deus que contempla o mundo pela primeira vez e o nomeia. Julgamos sempre a partir de um lugar, e esse lugar tem endereço, tem cicatriz, tem uma infância que ainda não terminou de acontecer dentro de nós. Quando Nietzsche insistia que não há fatos, apenas interpretações, ele não estava apenas relativizando o conhecimento, estava também revelando uma anatomia, a de que todo olhar carrega um corpo atrás de si, e todo corpo carrega uma história que não escolheu.
É por isso que julgar o outro é, antes de tudo, trair a si mesmo. Quando dizemos que alguém é frio, talvez estejamos confessando o abandono que sofremos e nunca perdoamos. Quando dizemos que alguém é ingênuo, talvez estejamos confessando a desilusão que nos ensinaram a chamar de maturidade. O julgamento aponta um dedo para fora, mas o dedo nasce de uma mão que é nossa, e a mão pertence a um braço que pertence a uma vida inteira de feridas classificadas, catalogadas e depois esquecidas sob o nome respeitável de opinião.
Kierkegaard sabia disso quando dizia que a subjetividade é a verdade, não porque tudo seja relativo e, portanto, indiferente, mas porque nenhuma verdade humana se sustenta fora do sujeito que a vive e a paga com sua própria existência. Julgar sem saber que se está confessando é a forma mais comum de covardia intelectual, é falar do mundo como quem lê um mapa e esquece que o mapa foi desenhado com a própria tinta do corpo. Os moralistas franceses, observadores impiedosos de si mesmos antes de o serem dos outros, compreenderam que toda máxima sobre a vaidade alheia era, em algum grau, uma confissão disfarçada, um espelho habilmente travestido de janela.
Pascal escreveu que o eu é odioso, e talvez tenha sido um dos primeiros a perceber que julgar os outros é uma estratégia de fuga, uma maneira elegante de nunca precisar olhar para dentro. Quanto mais seguros estamos de um veredicto sobre alguém, mais provável é que estejamos apenas repetindo, em linguagem alheia, uma ferida que se recusa a ser nomeada em primeira pessoa. O julgamento moral, quando não é examinado, funciona como anestesia, pois nos permite sentir a dor do outro sem nunca precisar sentir a nossa.
Isso não significa que devamos calar o julgamento, pois isso seria uma forma de desonestidade ainda maior, a de fingir não ter olhos. Significa apenas que devemos aprender a lê-lo como quem lê uma carta que nos foi endereçada sem que soubéssemos, uma carta escrita por nós mesmos, num tempo anterior, num idioma que só agora começamos a decifrar. Compreender é diferente de suspender o juízo, é saber, ao proferi-lo, que estamos, ao mesmo tempo, revelando o território de onde falamos, com suas fronteiras, suas guerras antigas, suas fomes nunca satisfeitas.
Heidegger dizia que o homem é um ser lançado, Geworfen, atirado ao mundo antes de poder escolher onde cair. Julgamos a partir do lugar exato onde fomos lançados, e por isso todo tribunal que erguemos contra o outro é também, sem que o percebamos, um tribunal contra o acaso que nos formou. Há uma humildade possível nisso, não a humildade que cala, mas a que fala sabendo que fala de dentro de uma ferida específica, com um nome, uma data, um rosto que não é universal.
Talvez a tarefa mais difícil da vida interior não seja parar de julgar, o que seria impossível e talvez desumano, mas aprender a ouvir, sob cada juízo que pronunciamos, a voz mais antiga que o dita. Ali, onde acreditávamos estar apenas descrevendo o mundo, descobrimos que sempre estivemos nos denunciando. Cada julgamento contém uma autobiografia involuntária, cada veredicto transporta consigo a memória silenciosa de quem o pronuncia. E talvez seja este o único caminho até uma sabedoria honesta, não a de quem julga menos, mas a de quem, ao julgar, já não finge desconhecer de quem é a voz que fala.
Oliver Harden

Subscrito

Bonani

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