
Basta atentar, com um mínimo de rigor, para
o que nos circunda, e logo se percebe que vivemos submersos numa profusão quase
oceânica de pensamentos estúpidos e boçais, que circulam com a mesma
naturalidade com que circula o ar, e que, por circularem tanto, deixaram de ser
questionados como se questiona qualquer outra coisa que se apresenta em excesso.
Alguns desses pensamentos possuem, além da estupidez que os constitui, uma
ambição adicional, a de nos convencer de que somos especiais, de que fomos
escolhidos, de que a vida nos reservou um destino diferenciado que a maioria dos
homens comuns jamais experimentará. Devo, no entanto, com toda a honestidade que
a reflexão exige, desiludir quem se agarra a tal ambição, não somos especiais, e
o sentimento de que o somos é, quase sempre, apenas o sintoma de um pensamento
desprovido de parâmetros, isto é, de um pensamento que jamais foi confrontado
com a medida exata das coisas. Convém compreender o que significa, exatamente,
um pensamento sem parâmetro. Não se trata de um pensamento falso no sentido
lógico estrito, pois a lógica exige premissas e conclusões que se possam
avaliar, e o pensamento sem parâmetro dispensa justamente esse trabalho. Ele não
argumenta, apenas afirma, e afirma com uma convicção tanto maior quanto menor
for a evidência que a sustenta. É o pensamento do horóscopo que promete que hoje
será um dia especial para você. É o pensamento da frase motivacional que
assegura que você tem um propósito único que o universo aguarda ansiosamente
para revelar. É o pensamento do algoritmo que, silenciosamente, nos convence de
que nossas opiniões, por serem nossas, merecem mais atenção do que as opiniões
de qualquer outro. Todos esses pensamentos compartilham a mesma estrutura.
Prometem excepcionalidade sem exigir prova alguma de excepcionalidade, e é
exatamente essa ausência de prova, essa recusa a medir-se contra qualquer
parâmetro externo, que os torna, ao mesmo tempo, sedutores e vazios.
Schopenhauer, que dedicou parte considerável de sua obra a desmontar as ilusões
consoladoras que os homens constroem para tolerar a existência, teria
reconhecido de imediato neste fenômeno uma variante contemporânea daquilo que
chamava de vontade cega operando através da ilusão individual. Para ele, cada
indivíduo tende a experimentar-se como centro absoluto do universo, não porque o
seja de fato, mas porque a própria estrutura da consciência, ao organizar toda a
experiência a partir de um único ponto de vista, produz inevitavelmente uma
sensação de centralidade cósmica, que a razão deveria corrigir e que a cultura
contemporânea, ao contrário, decidiu cultivar e monetizar. Onde Schopenhauer via
uma ilusão a ser superada pela lucidez filosófica, a nossa época construiu uma
indústria inteira dedicada a reforçá-la, pois a pessoa convencida de sua própria
excepcionalidade compra mais, engaja mais, permanece mais tempo diante da tela
que lhe sussurra, seguidamente, que ela é diferente de todos os outros que
recebem exatamente a mesma mensagem. Há algo de estatisticamente cômico, se me
permitem a expressão, nesta epidemia de excepcionalidade sentida. Se bilhões de
pessoas se sentem especiais simultaneamente, e cada uma delas com a mesma
intensidade de convicção, então a própria noção de especial perde qualquer
sentido operacional, pois um conceito que se aplica indiscriminadamente a todos
já não distingue coisa alguma, tornou-se, na prática, sinônimo de comum, embora
ninguém ouse pronunciar esta palavra em voz alta, pois ela fere o roteiro
emocional que a cultura terapêutica contemporânea nos ensinou a repetir. O
problema não está em acreditar que se possui valor, todo ser humano possui valor
moral, isto a tradição kantiana estabeleceu com clareza suficiente ao afirmar
que a pessoa deve ser tratada sempre como fim e nunca meramente como meio. O
problema está em confundir valor moral, que é universal e igualmente
distribuído, com excepcionalidade narrativa, que, por definição, não pode ser
universal sem deixar de significar alguma coisa. E aqui reside o verdadeiro
perigo destes pensamentos sem parâmetro, eles não apenas nos enganam sobre nós
mesmos, eles nos desarmam diante da realidade que exige, precisamente,
parâmetros para ser compreendida e enfrentada. Quem se convence de que o
universo conspira especialmente a seu favor deixa de desenvolver a disciplina
necessária para lidar com o universo indiferente que de fato existe. Quem se
convence de que seu talento é excepcional sem jamais medi-lo por critério algum
deixa de aperfeiçoar aquilo que, medido, talvez se revelasse apenas mediano, e o
mediano trabalhado supera, quase sempre, o excepcional presumido e nunca
exercitado. Nietzsche, que exigia de seus leitores a coragem de olhar para si
sem os véus da autoilusão consoladora, chamaria isto de covardia disfarçada de
autoestima, a recusa de medir-se, o embriagamento voluntário numa narrativa que
dispensa exatamente aquilo que tornaria a narrativa verdadeira, o esforço, o
teste, o confronto honesto com a resistência do mundo. Resta, então, perguntar o
que fazer diante desta profusão de pensamentos boçais que nos cercam por todos
os lados: na publicidade, nas redes, nos discursos de autoajuda que confundem
otimismo com verdade. A resposta que proponho não é o pessimismo complementar,
que seria apenas o inverso simétrico e igualmente sem parâmetro da ilusão que
combatemos. Seria trocar a mentira de que somos especiais pela mentira de que
somos insignificantes, e ambas dispensam, da mesma forma covarde, o único
caminho verdadeiramente exigente, que é medir-se. Medir-se contra o trabalho
realmente concluído e não apenas sonhado, contra o conhecimento realmente
adquirido e não apenas presumido, contra os outros que também labutam e que
também merecem, na disputa honesta, o reconhecimento que às vezes recebemos sem
merecer. Não somos especiais, é verdade, mas esta verdade, longe de ser motivo
de desespero, é antes a única base sólida sobre a qual algo de valor genuíno
pode, com paciência e sem ilusão, ser construído. Oliver Harden
Subscrito
Bonani
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