Darcy Ribeiro e A. Neto: a desigualdade e resolver os problemas do povo
Hoje acordei às seis da manhã.
Na verdade, acordo cedo quase todos os dias. Talvez seja um dos deveres silenciosos da velhice: dormir menos e pensar mais. À medida que os anos avançam, parece que o corpo necessita de menos sono e a memória exige mais tempo para conversar conosco.
Peguei o telemóvel — ou celular, como dizem aqui no Brasil — e, entre tantas mensagens e imagens que nos chegam antes mesmo do primeiro café, deparei-me com uma fotografia de Darcy Ribeiro acompanhada de uma frase:
“A nossa classe dominante é enferma de desigualdade.”
Parei.
Há frases que simplesmente lemos. Outras nos obrigam a pensar.
E esta me levou imediatamente para Angola.
Lembrei-me de António Agostinho Neto e de uma das frases que ficaram associadas ao seu pensamento político:
“O mais importante é resolver os problemas do povo.”
Darcy Ribeiro de um lado do Atlântico.
Agostinho Neto do outro.
Brasil e Angola.
Histórias diferentes, experiências coloniais distintas, dimensões territoriais diferentes, mas uma ferida que, em muitos aspectos, continua
semelhante:
a desigualdade.
Fiquei pensando que talvez as duas frases se completem.
Darcy diagnostica a doença.
Neto aponta o tratamento.
Se uma classe dirigente se habitua à desigualdade, se passa a considerá-la parte natural da paisagem social, dificilmente conseguirá compreender a profundidade dos problemas do povo.
Porque existe algo particularmente perverso na desigualdade: quem vive muito acima dela acaba deixando de enxergá-la.
Quem sempre teve água na torneira pode não compreender o drama de quem caminha quilômetros para buscar água.
Quem nunca esperou meses por uma consulta médica dificilmente sente a angústia de quem depende exclusivamente do sistema público.
Quem coloca os filhos nas melhores escolas talvez não perceba a tragédia de uma criança que estuda sem livros, sem alimentação adequada, sem professores suficientes ou dentro de uma sala sem condições mínimas.
É assim que a desigualdade deixa de ser apenas econômica.
Transforma-se também numa distância humana.
Pensei em Angola.
Um país de extraordinárias riquezas naturais.
Petróleo.
Diamantes.
Terras férteis.
Água.
Recursos minerais.
Um território imenso e um povo que atravessou séculos de colonialismo, guerra e sacrifícios.
Mas sempre pensei que a maior riqueza de Angola não está debaixo da terra.
Está sobre ela.
É o povo angolano.
As riquezas naturais pertencem, em última instância, à nação e precisam transformar-se em melhoria concreta da vida das pessoas.
E isso não significa colocar alguns milhares de dólares na mão de cada cidadão.
Resolver os problemas do povo é algo muito mais profundo.
É fazer com que a riqueza do país chegue à maternidade onde nasce uma criança.
À escola onde ela aprenderá a ler.
À universidade onde poderá estudar.
Ao hospital onde será tratada.
À estrada que permitirá ao camponês transportar a sua produção.
À água potável que chegará à aldeia.
Ao saneamento básico.
À habitação digna.
Ao transporte público.
À formação profissional.
À investigação científica.
Às bolsas de estudo dentro do próprio país.
À criação de empregos.
À infraestrutura que permita produzir riqueza para além do petróleo e dos diamantes.
Isso é distribuir riqueza.
Não entregar dinheiro.
É distribuir oportunidades.
E pensei também no Brasil.
Um país gigantesco, produtor de alimentos, rico em água, minerais, conhecimento científico e capacidade industrial, mas que ainda convive com realidades sociais que deveriam envergonhar qualquer sociedade que se pretenda desenvolvida.
Brasil e Angola padecem, cada um à sua maneira, de um paradoxo semelhante:
São países ricos onde ainda existem muitos pobres.
E talvez seja exatamente aí que a frase de Darcy Ribeiro se torne tão incômoda.
A desigualdade não sobrevive apenas porque existem pobres.
Ela sobrevive porque existem estruturas que aprenderam a conviver tranquilamente com a existência deles.
O problema começa quando a pobreza dos outros deixa de nos causar indignação.
Quando uma criança sem escola se transforma apenas numa estatística.
Quando uma família sem comida e água vira apenas um número num relatório.
Quando o desempregado deixa de ser uma pessoa e passa a ser apenas uma percentagem.
É nesse momento que a desigualdade deixa de ser somente uma deficiência econômica.
Torna-se uma enfermidade moral.
Talvez por isso Agostinho Neto tenha resumido tudo numa formulação tão simples:
“O mais importante é resolver os problemas do povo.”
Simples de dizer.
Difícil de realizar.
Porque resolver os problemas do povo exige prioridades.
E governar é, essencialmente, estabelecer prioridades.
Cada orçamento público revela uma escolha.
Cada hospital construído é uma escolha.
Cada escola abandonada também.
Cada bolsa concedida é uma escolha.
Cada comunidade que continua décadas sem saneamento também representa uma escolha.
O dinheiro público nunca é absolutamente neutro.
Ele revela quem importa.
Naquela manhã, antes mesmo do café, Darcy Ribeiro fez-me pensar em Neto.
Neto fez-me pensar em Angola.
Angola fez-me pensar no Brasil.
E percebi, mais uma vez, que os grandes pensadores conseguem conversar entre si mesmo quando nunca se sentaram à mesma mesa.
Um brasileiro disse que a classe dominante estava enferma de desigualdade.
Um angolano disse que o mais importante era resolver os problemas do povo.
Talvez esteja aí uma das respostas para os dois países.
Combater a doença apontada por Darcy para cumprir a missão lembrada por Neto.
Para o meu deleite e diante da impossibilidade de ver a Angola que Agostinho Neto imaginou, escrevi um romance no qual crio uma Angola sem desigualdade. Tudo o que imagino de bom foi colocado no meu país imaginário, Angolema — uma Angola como Neto e eu sonhamos.
Porque um país não é verdadeiramente rico quando possui petróleo, diamantes, minérios, terras férteis ou enormes reservas financeiras.
Um país é verdadeiramente rico quando a sua criança pode estudar, o seu trabalhador pode viver com dignidade, o seu doente pode ser tratado, o seu jovem pode sonhar e o seu velho pode envelhecer sem medo.
O resto é apenas riqueza contabilizada.
A verdadeira riqueza é aquela que chega ao povo.
E, afinal, continuo acreditando:
o mais importante ainda é resolver os problemas do povo.
Joao Portelinha da Silva
A. Neto e Darcy Ribeiro
Subscrito
Bonani


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