Lançai a Rede
E ele lhes disse: Lançai a rede para o lado direito do barco, e achareis. Lançaram-na, pois, e já não a podiam tirar, pela multidão dos peixes. João 21:6
AS REDES QUE LANÇAMOS
Há uma imagem antiga que a civilização insiste em esquecer, embora a repita todos os dias sem perceber que a repete: a do pescador que, ao amanhecer, lança sua rede sobre a água escura, sem saber exatamente o que encontrará, mas confiando que o gesto, se repetido com paciência suficiente, há de trazer algo à superfície. O pescador não vê o que está lá embaixo. Ele apenas lança, espera, recolhe. E é justamente essa cegueira parcial, esse não saber o que a água esconde, que transforma cada lançamento em ato de fé disfarçado de trabalho.
Nós, homens e mulheres do tempo presente, já não lançamos redes sobre rios ou mares. Lançamo-las sobre o próprio tempo. Todos os dias, de manhã, antes mesmo de abrirmos os olhos por inteiro, alguma parte de nós já está estendendo o fio invisível sobre as águas do dia que se inicia, na esperança de que ele traga à tona aquilo que desejamos: um cargo, um reconhecimento, uma quantia, um rosto que nos ame, uma imagem de nós mesmos que possamos, enfim, suportar. A diferença entre o pescador do rio e o pescador do desejo é que o primeiro sabe que pode voltar de mãos vazias, e aceita essa possibilidade como parte da natureza das coisas, ao passo que o segundo raramente admite, sequer para si mesmo, que a rede pode subir vazia, e que essa vacuidade não será acidente, mas condição.
Kierkegaard escreveu que a angústia é a vertigem da liberdade, o instante em que o homem, ao olhar para o abismo de possibilidades abertas diante de si, sente ao mesmo tempo o convite e o terror de escolher. A rede lançada é exatamente isso: uma escolha feita antes de saber o que ela captura. Cada vez que decidimos perseguir um objeto de desejo, uma promoção, um amor, um patrimônio, uma fama pequena ou grande, estamos lançando a rede sobre uma água que não conhecemos inteiramente, e a angústia que sentimos não é a de talvez não pegar nada, mas a mais funda, a de pegar exatamente aquilo que pedimos e descobrir que não era o que precisávamos.
Porque aqui reside o primeiro engano da metáfora, e talvez o mais cruel: o peixe, quando é pescado, permanece peixe. Ele não se transforma nas mãos de quem o captura. Mas o objeto do desejo humano muda de natureza no instante exato em que é alcançado. O cargo que parecia coroa se revela jaula. O amor que parecia porto se revela travessia inacabada. A riqueza que parecia liberdade se revela nova forma de servidão, agora disfarçada de conforto. Nietzsche, que compreendeu como poucos a economia secreta do querer, dizia que o homem prefere querer o nada a nada querer, e talvez seja essa a verdadeira função das nossas redes: não tanto capturar, mas manter-nos em movimento, ocupados no gesto de lançar, porque a alternativa, a mão parada, o desejo silencioso, é insuportável para uma consciência que precisa de direção para não se voltar contra si mesma.
Pascal, num fragmento que atravessa os séculos como uma flecha certeira, disse que toda a desgraça dos homens vem de uma única coisa, a incapacidade de ficarem tranquilamente sentados num quarto. A pesca do desejo é, em certo sentido, a versão elegante dessa fuga. Lançamos redes não apenas para capturar objetos, mas para não precisarmos permanecer diante do vazio que a quietude revela. O movimento da rede sobre a água distrai a alma de sua própria pergunta mais incômoda, que é a de saber o que, afinal, ela realmente procura, e se aquilo que procura é capaz de responder à sede que a move.
Há, porém, uma diferença essencial entre o gesto do pescador e o gesto do ambicioso, e essa diferença está no tempo. O pescador lança e recolhe dentro de um ciclo que se fecha, dia após dia, e cada rede vazia não o desespera, porque ele sabe que amanhã haverá outra maré, outra oportunidade, outro lançamento possível. O homem movido pelo desejo, ao contrário, costuma acreditar que existe uma rede final, um lance definitivo depois do qual a busca cessará e o repouso será finalmente merecido. É essa crença, mais do que qualquer objeto específico, que sustenta a maquinaria inteira da ambição contemporânea: a fantasia de que existe uma quantidade suficiente de peixes, um ponto de saciedade além do qual a alma finalmente descansará sobre as próprias conquistas.
Mas a alma humana, ao contrário do estômago, não conhece saciedade natural. Sartre, ao descrever a consciência como aquilo que nunca coincide inteiramente consigo mesma, ofereceu talvez a explicação mais precisa para esse fenômeno: somos, estruturalmente, seres de falta, projetados para além de nós mesmos, e por isso nenhum objeto capturado consegue preencher definitivamente aquilo que nos falta, porque o que nos falta não é um objeto, é a própria estrutura do desejo, que se recria a cada satisfação como a hidra recria suas cabeças. Pescamos o cargo e desejamos o cargo seguinte. Pescamos o reconhecimento e desejamos um reconhecimento maior. A rede sobe cheia e, ainda assim, alguma coisa em nós já está tecendo a próxima rede, maior, mais resistente, lançada mais longe.
É tentador, diante disso, concluir que o desejo é simplesmente uma armadilha da qual seria sensato escapar, que bastaria deixar de lançar redes para encontrar a paz. Mas essa conclusão, sedutora como é, ignora algo essencial sobre a condição humana: não lançar redes também é uma forma de morte antecipada. O homem que se recusa a desejar não se torna sábio, torna-se ausente. Camus, em sua reflexão sobre o absurdo, não propôs a renúncia ao desejo, mas a lucidez dentro dele, a capacidade de lançar a rede sabendo que ela pode não trazer o que se espera, e de encontrar, ainda assim, dignidade no próprio gesto de lançar. Sísifo não é feliz porque a pedra chega ao topo, pois ela nunca chega definitivamente. Sísifo é feliz, se é que podemos usar essa palavra, porque ele se apropria do movimento em si, porque transforma o eterno retorno da rede vazia em terreno de sentido, e não apenas em fracasso repetido.
Talvez seja essa a distinção mais importante a fazer: entre o pescador que lança a rede porque acredita cegamente que ela lhe trará a salvação definitiva, e aquele que lança sabendo que o mar não lhe deve nada, mas que o gesto de lançar, feito com atenção, com honestidade sobre o que se busca e por quê, já contém em si um princípio de dignidade que nenhuma captura poderia oferecer sozinha. Heidegger falava do homem como ser-para-a-morte, e talvez seja apenas diante dessa finitude radical que a pesca do desejo revela sua verdadeira face: não temos tempo infinito para lançar redes infinitas atrás de objetos infinitos, e por isso mesmo cada lançamento deveria carregar a pergunta que raramente nos permitimos fazer, a de saber se aquilo que perseguimos merece o tempo finito que estamos dispostos a gastar em sua captura.
Byung-Chul Han observou, com a precisão de quem diagnostica uma febre contemporânea, que vivemos numa sociedad do cansaço, em que o sujeito já não é oprimido por um poder externo, mas por si mesmo, pela obrigação interiorizada de produzir, de conquistar, de nunca parar de lançar. Já não existe quem nos force a pescar. Nós mesmos nos tornamos, ao mesmo tempo, o pescador e o chicote que o obriga a permanecer na água fria antes do amanhecer. E é aqui que a metáfora se torna mais perturbadora do que consoladora: se antes o homem lançava redes por necessidade, hoje ele lança por uma compulsão que confunde com liberdade, convencido de que a multiplicação incessante de lançamentos é prova de vitalidade, quando é, com frequência, sintoma de uma incapacidade cada vez mais profunda de sustentar o próprio silêncio.
Dostoiévski, que compreendeu como ninguém as profundezas contraditórias da alma humana, mostrou repetidamente personagens que obtêm exatamente aquilo que desejavam, o dinheiro, o poder, a vingança, a posição social, apenas para descobrir que a posse não resolve o que a ausência havia prometido resolver. Há algo de trágico e ao mesmo tempo de profundamente instrutivo nesse padrão: a rede sobe cheia, e o rosto do pescador, em vez de se iluminar, se enche de uma estranheza nova, porque o que ele segura nas mãos já não é mais o objeto sonhado, é apenas um objeto, pesado, real, insuficiente diante da grandeza que a imaginação lhe havia atribuído durante a espera.
Talvez, então, a sabedoria não esteja em deixar de lançar redes, nem em fingir que qualquer captura basta, mas em aprender a distinguir entre dois tipos fundamentalmente diferentes de pesca. Há a pesca que busca preencher um vazio que não tem fundo, que lança rede após rede na esperança impossível de que algum objeto, finalmente, seja grande o suficiente para tapar a falta constitutiva do ser. E há a pesca que se sabe parte de um ritmo maior, que lança porque lançar é próprio da vida, que recolhe o que vem e agradece, sem transformar cada captura em prova de que finalmente se é digno de existir. A primeira pesca é ambição sem repouso, um fogo que se alimenta de si mesmo e nunca se sacia. A segunda é algo mais próximo do que os antigos chamavam de virtude, a capacidade de desejar sem ser inteiramente possuído pelo próprio desejo.
No fim, talvez a única pergunta que valha a pena fazer, diante da água escura em que todos lançamos nossas redes, não seja o que desejamos capturar, mas por que continuamos, geração após geração, acreditando que desta vez, finalmente, a rede há de subir cheia daquilo que nos completará. Essa crença, mais antiga que qualquer religião e mais persistente que qualquer filosofia que tenta desmontá-la, é talvez o verdadeiro peixe que perseguimos, o objeto invisível sob todos os outros objetos: não o cargo, não o amor, não a riqueza, mas a promessa de que, um dia, a busca cessará e nós, enfim, seremos suficientes para nós mesmos. E é possível que essa promessa jamais se cumpra da forma que imaginamos, não porque o mundo seja cruel, mas porque fomos feitos, desde sempre, para lançar, e não para deter-nos definitivamente na margem, contemplando redes que já não precisam ser lançadas de novo.
Oliver Harden
Subscrito
Bonani

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