A PINTURA DA ALMA
Há, dentro de cada ser humano, uma pintura que jamais termina.
Não está pendurada em parede alguma, não possui moldura, não pode ser comprada, restaurada ou protegida contra o tempo. É uma obra clandestina, realizada lentamente no interior da consciência, com tintas que não escolhemos inteiramente. Algumas cores nos foram entregues pela infância, outras vieram das pessoas que amamos, muitas nasceram das feridas, e há tonalidades tão antigas que já não sabemos dizer se pertencem à nossa história ou à história daqueles que existiram antes de nós.
Chamamos essa pintura de alma.
Entretanto, a alma não é uma superfície branca sobre a qual a vida simplesmente deposita acontecimentos. Ela é, ao mesmo tempo, tela, tinta, pincel e pintor. Recebe aquilo que lhe acontece, mas também interpreta, altera, encobre e reinventa. Duas pessoas podem atravessar a mesma noite e amanhecer com paisagens interiores inteiramente diferentes. Uma guardará a escuridão, outra se lembrará de uma estrela. Uma fará da ausência um abismo, outra transformará o vazio em espaço para um novo começo.
Nada do que nos acontece entra intacto em nós. Tudo é tocado pela memória, deformado pelo desejo, sombreado pelo medo e iluminado pela esperança. A realidade oferece os pigmentos, mas é a consciência que mistura as cores.
Por isso, ninguém conhece verdadeiramente a pintura que carrega.
Vemos apenas fragmentos. Em certos dias, contemplamos uma região luminosa de nós mesmos e acreditamos ser feitos de claridade. Em outros, descobrimos um canto escuro, uma forma perturbadora, uma tonalidade que não reconhecemos, e suspeitamos que talvez tenhamos vivido durante anos ao lado de um desconhecido. O eu que apresentamos ao mundo é apenas a parte da tela que decidimos iluminar. Atrás dela permanecem figuras inacabadas, paisagens interditadas, rostos cobertos por novas camadas de tinta e antigos esboços que ainda insistem em reaparecer.
Toda personalidade é, em alguma medida, uma curadoria.
Selecionamos aquilo que pode ser exposto, corrigimos os contornos que nos envergonham, intensificamos as cores que desejamos mostrar. Aprendemos a produzir uma imagem aceitável de nós mesmos e, com o passar dos anos, corremos o risco de confundir a exposição com a obra inteira. Tornamo-nos guardiões de uma versão cuidadosamente restaurada de quem acreditamos ser.
Mas a alma não respeita inteiramente essa organização.
Às vezes, uma palavra casual rasga a superfície. Um reencontro remove uma camada de verniz. Uma música antiga devolve ao quadro uma cor que julgávamos extinta. Um abandono abre uma fenda pela qual reaparece a criança que escondemos. Um amor ilumina regiões que permaneceram durante décadas na penumbra. Então percebemos que nada havia desaparecido completamente. Algumas experiências apenas aguardavam sob outras experiências, como pinturas antigas descobertas atrás das paredes de uma casa.
A memória é uma restauradora ambígua. Em certas ocasiões, devolve-nos aquilo que o tempo quase apagou. Em outras, inventa contornos, modifica expressões, acrescenta luz onde havia sombra e sombra onde talvez houvesse apenas silêncio. Não recordamos o passado como quem consulta um arquivo. Recordamo-lo como quem repinta incessantemente uma paisagem. Cada lembrança é uma obra refeita pelo presente.
Talvez por isso nunca sejamos exatamente aquilo que fomos, nem consigamos abandonar completamente quem um dia fomos. O passado não permanece atrás de nós. Permanece dentro, misturado às tintas com que pintamos o futuro.
Há pessoas que passam a vida cobrindo a própria alma com cores alheias. Pintam-se com as expectativas da família, com os desejos da sociedade, com as tendências de uma época, com os julgamentos de pessoas que jamais tiveram coragem de contemplar a si mesmas. Tornam-se obras tecnicamente corretas, socialmente admiradas e interiormente falsas. Possuem harmonia, mas não verdade. Foram compostas para agradar aos espectadores, não para testemunhar uma existência.
Essa talvez seja uma das tragédias mais silenciosas do ser humano, transformar-se numa pintura que todos reconhecem, exceto aquele que vive dentro dela.
Quanto mais nos afastamos de nossa verdade, mais dependemos dos olhos do público. Precisamos que os outros confirmem a beleza da imagem, pois já não conseguimos sentir sua autenticidade. A aprovação torna-se o verniz que impede a obra de desmanchar. Sem aplausos, elogios ou reconhecimento, a superfície começa a rachar, e por suas fissuras emerge uma pergunta que passamos anos tentando evitar:
Quem seria eu se ninguém estivesse olhando?
A verdadeira pintura da alma começa quando suportamos essa pergunta.
Não se trata de descobrir uma essência pura, intacta e escondida sob as influências do mundo. Tal pureza jamais existiu. Somos feitos de encontros, perdas, linguagens, histórias e relações. Até mesmo o gesto com que procuramos nossa individualidade foi aprendido em alguma parte. A autenticidade não consiste em eliminar tudo aquilo que veio dos outros, mas em reconhecer o que fizemos com aquilo que recebemos.
Somos menos a origem das tintas do que a maneira singular de misturá-las.
A tristeza, por exemplo, visita inúmeras pessoas, mas não produz a mesma cor em todas elas. Em algumas, torna-se amargura. Em outras, delicadeza. Há quem transforme a própria dor em autorização para ferir e quem faça dela uma capacidade mais profunda de reconhecer o sofrimento alheio. O sofrimento não pinta sozinho. Ele apenas deposita uma matéria escura sobre a tela. Aquilo que surgirá dessa matéria dependerá do trabalho invisível da consciência.
A dor pode escurecer uma existência, mas também pode aprofundar suas sombras. E toda pintura profunda necessita de sombras, não para glorificar a escuridão, mas para que a luz deixe de ser superficial.
Nenhum grande quadro é composto somente de claridade. Uma tela inteiramente luminosa seria apenas uma superfície cega. É o contraste que oferece volume às formas, distância aos horizontes e humanidade aos rostos. Talvez ocorra o mesmo conosco. Não somos profundos porque sofremos, mas podemos adquirir profundidade quando recusamos permitir que o sofrimento seja apenas destruição.
A maturidade começa quando deixamos de perguntar por que a vida utilizou determinada cor e passamos a perguntar o que ainda podemos pintar com ela.
Há tintas que não podem ser removidas. Certas perdas alteram definitivamente a composição. Depois delas, nenhuma restauração devolve a obra ao estado anterior. O espaço ocupado por quem partiu não pode ser preenchido sem que se falsifique a pintura. É preciso aprender a conviver com a ausência como parte da paisagem. Não porque a ausência se torne bela, mas porque também ela passa a testemunhar que ali existiu amor.
O luto é uma espécie de moldura quebrada. A pintura continua, mas já não pode ser contemplada da mesma maneira.
Durante algum tempo, todas as cores parecem cobertas por uma névoa. O mundo permanece materialmente igual, mas perde sua temperatura. As manhãs chegam, os objetos permanecem em seus lugares, as pessoas continuam falando, entretanto, algo essencial deixou de responder. Aos poucos, porém, a alma aprende uma arte dolorosa, não a de apagar quem se foi, mas a de integrar sua ausência à continuidade da vida.
Aquilo que amamos não desaparece por completo. Torna-se uma cor que já não conseguimos separar das demais.
Também o amor pinta. Talvez seja ele o único acontecimento capaz de modificar simultaneamente a tela e o pintor. Quando amamos, certas partes de nós ganham contornos que sozinhos jamais teríamos descoberto. O outro não apenas entra em nossa paisagem, ele altera a perspectiva pela qual contemplamos tudo. Há lugares que se tornam belos porque foram vistos ao lado de alguém. Há músicas que deixam de pertencer à música. Há objetos insignificantes que adquirem uma aura quase sagrada porque foram tocados por mãos que amamos.
Amar é permitir que alguém acrescente cores à nossa alma sem lhe entregar completamente o pincel.
Quando entregamos o pincel, deixamos de amar e passamos a desaparecer. O amor verdadeiro não exige que uma pintura seja apagada para que outra exista. Ele aproxima duas obras incompletas, não para fundi-las numa imagem indistinta, mas para que cada uma encontre, diante da outra, novas possibilidades de expressão.
Algumas pessoas, contudo, entram em nossa vida não para acrescentar cores, mas para cobrir aquilo que somos. Chamam controle de cuidado, posse de amor, invasão de intimidade. Aos poucos, a alma perde suas formas originais e passa a exibir apenas aquilo que o outro permite. Recuperar-se dessas relações exige mais do que afastamento. Exige uma restauração profunda, a lenta reaprendizagem do próprio traço.
É necessário retirar, camada por camada, a tinta que nos impuseram, até reencontrar algum vestígio da mão que um dia foi nossa.
Mas há também aqueles encontros raros nos quais alguém contempla nossas ruínas sem exigir que as escondamos. Não tenta corrigir imediatamente nossas imperfeições, não transforma nossas cicatrizes em defeitos estéticos, não exige uma versão restaurada para permanecer. Apenas olha. E, ao olhar sem crueldade, devolve-nos a possibilidade de olhar para nós mesmos.
Talvez o amor mais profundo seja aquele que não pinta por nós, mas nos devolve coragem para continuar pintando.
A alma, porém, não é apenas aquilo que sentimos. É também aquilo que fazemos com o que sentimos. Nossas escolhas deixam marcas mais duradouras do que nossas intenções. Podemos carregar sentimentos belos e produzir atos cruéis. Podemos possuir discursos luminosos e espalhar sombras por onde passamos. A pintura interior não é julgada apenas pelas cores que imaginamos conter, mas pelos traços que deixamos no mundo.
O caráter é a parte visível da pintura da alma.
Não importa quão nobres sejam as intenções secretas, se nossas mãos ferem repetidamente aqueles que se aproximam. Não basta admirar a bondade como conceito, é preciso transformá-la em gesto. Uma alma não se torna bela por contemplar a luz, mas por aprender a oferecê-la.
Existe uma beleza que não depende de simetria, juventude ou perfeição. É a beleza das coisas que atravessaram o tempo sem perder inteiramente a capacidade de acolher. Encontramo-la em rostos marcados, em vozes cansadas que ainda falam com ternura, em pessoas feridas que se recusaram a transformar a dor em crueldade. São pinturas nas quais as rachaduras não foram escondidas. Tornaram-se parte da composição.
Há uma dignidade particular naquilo que foi quebrado e, ainda assim, não escolheu quebrar os outros.
Ao longo da vida, tentamos muitas vezes corrigir nossa pintura para torná-la mais aceitável. Apagamos emoções, escondemos fragilidades, envergonhamo-nos das cores intensas e suavizamos os traços para não perturbar ninguém. Contudo, talvez a beleza não esteja na ausência de imperfeições, mas na honestidade com que foram incorporadas à obra.
Uma alma perfeita seria uma alma sem história.
Tudo o que vive sofre alterações. O tempo escurece certos pigmentos, abre fissuras, desgasta superfícies. Não deveríamos esperar que a consciência permanecesse intacta depois de atravessar amores, mortes, fracassos, descobertas e despedidas. Viver é aceitar que a obra será continuamente modificada, e que algumas de suas transformações somente poderão ser compreendidas muitos anos depois.
Há fases em que julgamos estar destruindo a pintura, quando talvez estejamos apenas abandonando uma composição que já não poderia nos conter.
Toda transformação verdadeira possui algo de demolição. Para que uma nova imagem surja, certos contornos precisam desaparecer. Isso nos assusta porque confundimos identidade com permanência. Desejamos mudar sem perder nada, amadurecer sem abandonar ilusões, recomeçar sem encerrar histórias. Mas não há criação sem algum tipo de renúncia. Até a tela precisa aceitar a violência delicada do pincel.
Somos obras inacabadas, e essa incompletude não constitui um defeito. É precisamente o que nos mantém vivos. Uma pintura concluída já não pode surpreender o próprio artista. Uma alma terminada seria uma alma incapaz de aprender, arrepender-se, perdoar, amar de outra maneira ou descobrir novas formas de existir.
Enquanto vivemos, ainda há espaço para outra cor.
Podemos alterar um gesto antigo, pedir perdão por uma sombra que espalhamos, retirar o excesso de orgulho, acrescentar delicadeza a uma região endurecida. Não podemos pintar novamente o que já aconteceu, mas podemos modificar o lugar que esse acontecimento ocupará no conjunto da obra.
A liberdade talvez resida nisso, não em escolher todas as tintas que recebemos, mas em decidir, dentro de certos limites, o que faremos com elas.
No fim, ninguém verá a pintura inteira. Nem mesmo nós. Partiremos deixando regiões inacabadas, perguntas sem resposta, afetos sem nome e formas cuja verdadeira natureza talvez apenas os outros consigam reconhecer. Permaneceremos, contudo, em pequenas pinceladas nas almas daqueles que encontraram a nossa. Uma palavra dita no momento exato, um cuidado oferecido sem testemunhas, uma crueldade que alguém ainda tenta esquecer, um abraço cuja memória continua aquecendo uma noite distante.
Vivemos também nas pinturas alheias.
Cada pessoa que atravessamos leva consigo algum pigmento de nossa passagem. Por isso, nenhuma existência é inteiramente privada. Estamos continuamente pintando uns aos outros, muitas vezes sem perceber. Há pessoas que nos deixam cores. Outras deixam cicatrizes. Algumas oferecem luz. Outras ensinam a temer a claridade.
Talvez a pergunta mais importante não seja se nossa alma é bela. A beleza, afinal, pode ser uma forma refinada de vaidade. A pergunta essencial é outra:
Que espécie de marca nossa presença acrescenta à alma daqueles que se aproximam de nós?
Porque, ao final, a pintura da alma não será avaliada pela perfeição de suas formas, mas pela verdade de suas cores, pela coragem de suas sombras e pela quantidade de luz que, mesmo ferida, ainda foi capaz de oferecer.
Somos telas rasgadas pelo tempo, atravessadas por pincéis invisíveis. Em nós, a vida mistura o ouro dos encontros, o negro das perdas, o vermelho das paixões, o cinza dos dias comuns e o branco inquietante daquilo que ainda não aconteceu.
E talvez viver seja exatamente isto, permanecer diante da própria tela incompleta, com as mãos manchadas, o coração exposto e a silenciosa esperança de que, antes do último gesto, ainda possamos transformar alguma escuridão em profundidade, alguma ferida em testemunho e alguma ausência em uma forma secreta de eternidade.
Oliver Harden
Subscrito
Bonani

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