A Hospitalidade e a Memória Curta
Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos…Hebreus 13:2
Dizem que a hospitalidade é a forma mais pura de diplomacia humana. É abrir a porta de casa — e a da alma — para acolher o frio de alguém, oferecendo o casaco, o prato quente e a escuta sem julgamentos. Quando exercemos a empatia e a hospitalidade, não pedimos garantias. Não há contrato assinado na mesa de jantar, nem juros estipulados no café que se serve com carinho. Dá-se porque se sente. Acolhe-se porque, naquele momento, a dor ou a necessidade do outro pesam mais do que o nosso próprio egoísmo.
O problema nasce quando o inverno da outra pessoa passa.
Há um fenómeno doloroso na natureza humana: o esquecimento seletivo de quem foi salvo. Enquanto precisavam da corda, o salvador era um herói; assim que pisam solo firme, a corda torna-se um estorvo visual que recorda a sua antiga fraqueza. É aí que a ingratidão ganha forma. Pessoas que outrora encontraram abrigo na nossa generosidade, que foram reerguidas pela nossa empatia quando o mundo lhes virava as costas, decidem fazer exatamente o mesmo: virar as costas a quem as estendeu a mão.
Essa partida silenciosa, ou pior, a indiferença deliberada de quem finge que nunca precisou de nós, corta mais profundo do que qualquer rejeição inicial. Ver alguém que alimentámos — seja de pão, seja de afeto e oportunidades — passar por nós como se fôssemos estranhos, ou usar o que aprendeu conosco para nos diminuir, é um teste violento à nossa bondade.
Quem vira as costas à hospitalidade recebida sofre de uma miopia moral crónica. Julga que a sua nova posição de força é mérito puramente seu, apagando da história a fundação que os outros ajudaram a construir. Esquecem-se de que o mundo gira e as estações mudam.
Ainda assim, a maior armadilha da ingratidão alheia não é o que ela nos retira, mas o que pode fazer connosco se permitirmos. O perigo real é deixar que o cinismo dos outros feche as nossas portas para sempre, transformando o nosso coração aberto numa fortaleza trancada. Quem nega o bem que recebeu perde a humanidade; quem deixa de fazer o bem por causa da ingratidão, entrega a sua luz aos ingratos.
Acolher continua a valer a pena. A empatia continua a ser o caminho. Os que viram as costas seguem viagem com as pernas leves, mas com a bagagem pesada da dívida que têm com a própria consciência — mesmo que ainda não o saibam.
O maravilhoso na hospitalidade e na empatia é a certeza inabalável de que; entre muitos que foram recebidos, abraçados e amados, entre os tais, podem estar anjos enviados pelo Senhor que se hospedaram em nossas casas e vidas.
Aleluia!!!
Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos…
Hebreus 13:2
Bispo Bonani
Gratidão Bispo pelo conteúdo...🙌
ResponderExcluirÓtimo texto. Infelizmente tão verdadeiro e atual.
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