Descritivo ou Prescritivo... Como interpretar uma passagem bíblica?
“E o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (Atos 16.14). A citação referente a Lídia é fundamental para abrir este estudo, pois ela estabelece o princípio hermenêutico que deve governar toda leitura bíblica responsável: é Deus quem ilumina o entendimento, não ideologias, ressentimentos culturais ou leituras militantes do texto sagrado. Sem essa abertura divina, episódios difíceis das Escrituras são facilmente distorcidos, instrumentalizados ou usados como arma contra a própria fé cristã.
O episódio envolvendo Ló e suas duas filhas, narrado em Gênesis 19.30–38, jamais pode ser lido como aprovação divina do incesto, nem como incentivo moral, nem como norma religiosa. Trata-se de uma narrativa descritiva, não prescritiva. A Bíblia não romantiza o pecado, nem o suaviza; ela o expõe para revelar a profundidade da queda humana e, simultaneamente, a soberania e misericórdia de Deus que atuam apesar da corrupção humana. A tentativa de acusar as Escrituras de “endossar” o incesto revela, na verdade, uma leitura desonesta ou ignorante do gênero literário, da teologia bíblica e do propósito redentivo do texto.
Gênesis 19 apresenta uma progressão narrativa deliberadamente sombria. Após a destruição de Sodoma e Gomorra por causa de sua imoralidade extrema, Ló refugia-se numa caverna com suas filhas. O texto deixa claro que Ló não é poupado por mérito próprio, mas por causa da intercessão de Abraão (Gn 18.22–33; 19.29). Isso é crucial: a salvação de Ló é um ato de misericórdia relacional, não uma validação de sua conduta. As filhas, por sua vez, acreditam que “não há homem na terra” (Gn 19.31), o que sugere uma percepção distorcida da realidade, possivelmente causada pelo trauma da destruição total que testemunharam, pelo isolamento prolongado na caverna e por uma mentalidade moldada em um ambiente cultural profundamente corrompido.
Um elemento frequentemente negligenciado, mas teologicamente relevante, é o fator da memória histórica recente do dilúvio. De acordo com as genealogias de Gênesis, é plausível que Noé ainda estivesse vivo quando Abraão nasceu, o que significa que o relato do juízo das águas não era um mito distante, mas uma experiência histórica transmitida diretamente de pai para filho, como advertência e referência real do agir de Deus na história. Abraão conhecia o dilúvio, seus parentes conheciam o dilúvio, e esse evento moldava profundamente a cosmovisão das gerações posteriores. À luz disso, não é descabido considerar que as filhas de Ló, isoladas numa caverna após testemunharem a destruição total de cidades inteiras pelo fogo divino, tenham interpretado aquele juízo à semelhança do dilúvio, concluindo, de forma equivocada, que estavam entre os últimos sobreviventes da humanidade. Essa leitura nos ajuda a compreender o raciocínio distorcido que nasce quando o medo, o trauma e a ausência de uma relação viva com Deus substituem a confiança na promessa divina.
O texto bíblico não justifica o método adotado, tampouco absolve moralmente os envolvidos. A embriaguez de Ló, a manipulação deliberada das filhas e o incesto são apresentados como fatos nus e desconfortáveis. A própria estrutura narrativa reforça o juízo implícito: os filhos nascidos dessa relação tornam-se os ancestrais dos moabitas e amonitas, povos que, ao longo da história bíblica, se opõem reiteradamente a Israel. A Bíblia, portanto, já interpreta o episódio ao associá-lo a consequências históricas negativas.
Do ponto de vista da teologia bíblica, este texto se insere na grande narrativa da depravação total da humanidade após a queda. A destruição de Sodoma não elimina o pecado do coração humano; ele sobrevive, agora deslocado para uma caverna. A geografia muda, mas o problema espiritual permanece. A ausência de referência a Deus nas decisões das filhas é teologicamente eloquente. Onde não há temor do Senhor, não se pode esperar discernimento moral. Esse episódio confirma o diagnóstico paulino posterior: “não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.12).
Ao mesmo tempo, a soberania e a misericórdia de Deus se manifestam de forma surpreendente. Dos moabitas surge Rute, uma mulher gentia, piedosa e fiel, que se une a Boaz e entra diretamente na linhagem messiânica (Rt 4.13–22). Mateus 1.5 não omite esse dado. A inclusão de Rute na genealogia de Cristo é um testemunho poderoso de que Deus não apenas julga o pecado, mas também redime histórias quebradas. Ele não aprova o mal, mas é soberano o suficiente para fazer emergir graça onde houve ruína.
Agostinho de Hipona, em A Cidade de Deus (Livro XVI), interpreta o episódio como evidência da fragilidade moral humana mesmo após livramentos divinos, enfatizando que a Escritura relata tais fatos “não para que sejam imitados, mas para que se veja o quanto a natureza humana necessita da graça”. João Crisóstomo, ao comentar Gênesis, destaca que a narrativa serve como advertência contra a embriaguez e contra decisões tomadas à margem da razão iluminada por Deus, afirmando que “o texto expõe o pecado para gerar temor, não complacência”. Já João Calvino observa que o silêncio divino no texto não é aprovação, mas juízo implícito, pois “a própria torpeza do ato se condena a si mesma sem necessidade de comentário adicional”. Entre comentaristas contemporâneos, Gordon Wenham ressalta que a linguagem de Gênesis 19 ecoa intencionalmente o dilúvio, mostrando como o medo de extinção leva novamente a decisões moralmente desordenadas, reforçando o ciclo do pecado humano fora da confiança na promessa divina.
Este texto nos confronta com uma verdade incômoda: livramentos externos não garantem transformação interna. É possível sair de Sodoma sem que Sodoma saia do coração. A caverna de Ló torna-se um símbolo do isolamento espiritual, da fé herdada, mas não amadurecida, e de decisões tomadas sem oração, sem consulta a Deus e sem esperança em sua providência. Ao mesmo tempo, o texto aponta para um Deus que não abandona a história à lógica do pecado humano. A linhagem de Cristo inclui histórias moralmente quebradas, não para relativizar o pecado, mas para exaltar a graça.
Portanto, o episódio de Ló e suas filhas não desacredita as Escrituras; pelo contrário, confirma sua honestidade teológica. A Bíblia não é propaganda religiosa, mas revelação divina que expõe a miséria humana e magnifica a misericórdia soberana de Deus. Ler esse texto fora da teologia bíblica é perder sua profundidade; lê-lo com os olhos abertos pelo Senhor é reconhecer que, onde o pecado abundou, superabundou a graça, sem jamais confundir graça com aprovação do pecado.
Ao final, este episódio se soma a tantos outros nas Escrituras que demonstram uma verdade central da fé bíblica: o Senhor não é o autor do mal, mas é soberano sobre ele e poderoso para transformá-lo em instrumento de seus propósitos redentores. Assim como no caso de José, que pôde afirmar que o mal intentado contra ele foi transformado por Deus em bem, também na história de Ló e de suas filhas vemos que o pecado humano não tem a palavra final. Daquele cenário marcado por medo, confusão moral e decisões trágicas, Deus faz surgir uma linhagem que, atravessando gerações, culmina na pessoa de Jesus Cristo, o Redentor prometido. A presença de Rute na genealogia do Messias é um testemunho inequívoco de que a misericórdia divina alcança histórias quebradas sem jamais legitimar o pecado que as marcou. Para nós, hoje, essa realidade sustenta uma esperança viva: nenhum passado é tão sombrio que esteja fora do alcance da graça de Deus. Olhar para o futuro à luz da obra redentora de Cristo é reconhecer que, mesmo quando a humanidade falha gravemente, o Senhor continua conduzindo a história com justiça, misericórdia e fidelidade, acendendo em nós a chama da esperança que não se apaga, porque está firmada não na perfeição humana, mas na soberania e no amor de Deus revelados em Cristo.
Em Cristo,
João Fonseca
Subscrito
Bonani

Comentários
Postar um comentário
Escreva aqui seu comentário e enriqueça ainda mais o Blog com sua participação!