O Novo Testamento e a Escravidão

 


Sempre que ouvimos a palavra “escravidão”, a nossa mente, quase automaticamente, associa o termo à escravatura racial praticada pelos europeus contra os africanos entre os séculos XVI e XIX. Essa associação é compreensível, pois esse sistema marcou profundamente a história da África e das Américas. No entanto, quando lemos textos bíblicos como Efésios 6:5–9 e Colossenses 3:22 sem fazer a devida distinção histórica, corremos o risco de interpretar Paulo de forma equivocada, projetando sobre o mundo bíblico uma realidade que não corresponde ao seu contexto original.


No Império Romano do século I, a escravidão não era baseada na raça, mas fazia parte de um sistema econômico e social complexo. Pessoas tornavam-se escravas por diversos motivos: captura em guerras, dívidas impagáveis, nascimento ou até por decisão própria. Em muitos casos, indivíduos se entregavam voluntariamente à escravidão como forma de sobrevivência, buscando proteção, alimentação, abrigo e estabilidade econômica dentro da casa de um senhor. Para alguns, ser escravo numa casa estruturada era preferível à miséria, à fome ou à morte nas ruas.


Além disso, o escravo romano não era apenas um trabalhador braçal. Muitos exerciam funções qualificadas, como médicos, educadores, administradores e artesãos. A casa (oikos) funcionava como uma unidade econômica e social, e os escravos faziam parte essencial dessa estrutura. Havia também a possibilidade de alforria, o que tornava a escravidão, em muitos casos, uma condição temporária. Contudo, mesmo após a libertação, o ex-escravo permanecia dependente do antigo senhor, pois não dispunha de redes sociais ou recursos próprios.


Dentro desse contexto, Paulo escreve às comunidades cristãs. Quando ele orienta os escravos a obedecerem a seus senhores, não está legitimando a escravidão como vontade divina, mas oferecendo instruções práticas para a convivência cristã dentro de um sistema que ele não tinha poder político para abolir. Ao mesmo tempo, Paulo não se dirige apenas aos escravos. Ele também exorta os senhores, ordenando que tratem seus servos com justiça, respeito e amor, lembrando-lhes que ambos, senhores e escravos,  têm o mesmo Senhor nos céus, diante do qual não há acepção de pessoas.


Essa dupla exortação é fundamental para entender a intenção de Paulo. Ele não reforça a lógica da dominação absoluta típica do direito romano, mas a subverte a partir do evangelho. Ao exigir que os senhores cuidem de seus servos com amor, Paulo introduz um princípio radical de igualdade espiritual e responsabilidade moral, que enfraquece a base ética da escravidão, mesmo que a estrutura social ainda continue existindo.


É importante lembrar também que a escravidão não foi introduzida na África pelos europeus. Já existiam formas de escravidão e servidão em diversas sociedades africanas antes do contato com a Europa. Quando os europeus chegaram ao continente, as primeiras trocas comerciais envolvendo pessoas escravizadas foram frequentemente mediadas por líderes e comerciantes africanos, que vendiam seus próprios irmãos em troca de bens produzidos na Europa. Essa constatação não isenta os europeus da brutalidade do sistema transatlântico, mas ajuda a compreender que a escravidão é um fenômeno humano antigo e complexo, presente em diferentes culturas e épocas.


Portanto, ao interpretar os textos paulinos, é essencial evitar leituras simplistas ou anacrônicas. Paulo não estava defendendo a escravidão racial moderna, nem ignorando a dignidade humana. Pelo contrário, ele procurava transformar as relações sociais de dentro para fora, afirmando que, em Cristo, tanto o escravo quanto o senhor pertencem à mesma família de fé. Sua esperança era que o amor cristão, vivido na prática da igreja, tornasse a escravidão cada vez mais incompatível com a fé cristã.

Subscrito

Bonani

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