A ignorância e seus Custos
O juiz encarou o homem que acabara de disparar contra o presidente egípcio Anwar Sadat e perguntou, em tom sereno: — Por que você o matou? — Porque ele era seglar. O silêncio que se instalou foi mais pesado que qualquer sentença. — O que significa “seglar”? — insistiu o juiz. O homem hesitou, engoliu em seco. — Eu não sei. Em outro tribunal, outro réu. Desta vez, acusado de tentar assassinar o escritor Naguib Mahfouz. — Por que o esfaqueou? — Porque ele escreveu um romance contra a religião. — Você leu o livro? — Não. Em uma terceira sala, mais um julgamento. O acusado havia matado o intelectual Farag Fouda. — Por que você o matou? — Porque ele não tinha fé. — Como você sabe? — Está nos livros dele. — Em qual livro? Silêncio. — Eu não sei. Nunca li. — Por quê? O homem abaixou a cabeça, como quem admite aquilo que todos já compreendem. — Eu não sei ler nem escrever. Três julgamentos. Três mortes. Um mesmo padrão. Matava-se por ideias que não se entendiam. Condenava-se por palavras...