A Ilusão e a Devoção a Ela
Há um excesso de mundo e uma escassez de consciência. Multiplicam-se as certezas como se fossem moedas falsas, repetidas até ganharem aparência de valor. Chama-se realidade a esse consenso apressado, construído não pela verdade, mas pela fadiga de pensar. O homem, cansado de sustentar o peso da dúvida, prefere habitar uma ficção coletiva, sólida o bastante para dispensar perguntas e frágil o suficiente para jamais suportar reflexão.
A realidade, assim proclamada, não passa de um acordo tácito entre espíritos que temem o silêncio interior. Ela precisa ser nomeada incessantemente, rotulada, reafirmada, como se pudesse escapar pelos vãos do pensamento. Quem insiste em dizê-la “real” revela, sem perceber, o pânico de que ela se dissolva ao primeiro olhar mais atento. Afinal, aquilo que necessita de tanta repetição talvez jamais tenha sido sólido.
O trágico não está na ilusão, mas na devoção a ela. Vive-se como se o mundo fosse algo externo, um objeto bruto diante dos olhos, esquecendo que toda experiência é filtrada pela consciência, pela linguagem, pela memória falha. Acredita-se que a verdade mora fora, quando ela nasce, se deforma e morre dentro do sujeito. O real, então, transforma-se em um teatro mal ensaiado, onde cada um representa o papel que aprendeu a chamar de si mesmo.
Eis a ironia maior, o homem chama de lucidez aquilo que o livra do incômodo de pensar, e chama de loucura tudo aquilo que ameaça suas certezas frágeis. A realidade, nesse cenário, não é um chão, mas uma anestesia. Um pacto silencioso para não ver demais, para não sentir fundo, para não suspeitar que o mundo talvez seja menos estável do que se repete.
No fim, essa chamada realidade sobrevive apenas graças ao esquecimento. Esquecem-se as contradições, os abismos, as perguntas sem resposta. O mundo segue, não por ser verdadeiro, mas por ser conveniente. E assim, entre “realidades” infladas e “realmentes” vazios, o espetáculo continua, uma comédia melancólica encenada por quem confunde consenso com verdade e chama de mundo aquilo que jamais ousou pensar.
Oliver Harden
Subscrito
Bonani
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