Epigenéticas e as Situações Traumáticas
Durante muito tempo, acreditou-se que o trauma era apenas uma experiência individual, limitada à história de quem o viveu. Hoje, a ciência começa a investigar como experiências intensas de estresse, violência, perdas e privações podem deixar marcas que atravessam gerações, não como lembranças conscientes, mas como alterações na forma como o organismo responde ao mundo.
Estudos em epigenética mostram que situações traumáticas podem modificar a expressão de certos genes sem alterar o DNA em si. Essas modificações epigenéticas afetam sistemas fundamentais, como o eixo do estresse hipotálamo–hipófise–adrenal, influenciando níveis de cortisol, respostas de medo, vigilância e regulação emocional. Em alguns casos, essas alterações parecem estar presentes também nos descendentes.
Pesquisas com filhos de sobreviventes do Holocausto e populações expostas a guerras, fome extrema ou violência crônica sugerem maior vulnerabilidade a ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao estresse. No entanto, isso não significa determinismo biológico. A herança não é o trauma em si, mas uma predisposição, uma sensibilidade maior do sistema nervoso a certos estímulos.
Além do aspecto biológico, há um fator igualmente importante: o ambiente emocional e relacional. Pais que carregam traumas não elaborados podem, involuntariamente, transmitir padrões de medo, silêncio, hipercontrole ou instabilidade emocional por meio da forma como se vinculam aos filhos. A criança cresce tentando se adaptar a um clima emocional que antecede sua própria história.
Do ponto de vista psicanalítico, isso se expressa como transmissão psíquica transgeracional. Conteúdos não simbolizados, não ditos e não elaborados retornam como sintomas, repetições ou angústias sem nome nas gerações seguintes.
A boa notícia é que nada disso é uma sentença definitiva. A epigenética é dinâmica, e o psiquismo humano é plástico. Relações seguras, ambientes estáveis, processos terapêuticos e elaboração simbólica podem interromper ciclos de repetição. Quando o trauma é reconhecido, nomeado e trabalhado, ele deixa de se propagar silenciosamente.
Assim, a ciência não afirma que estamos condenados à dor herdada. Ela revela algo mais profundo: aquilo que não é cuidado tende a se repetir, e aquilo que é elaborado pode se transformar.
Bonani

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