DA MODA, OU A ARTE DE NÃO AMAR COISA ALGUMA




Há uma pequena construção da língua portuguesa que contém, inteira, a metafísica do nosso tempo. Diz-se: "neste inverno usa-se o cinza". Usa-se. Quem usa? A gramática responde com uma honestidade que os costureiros não têm: ninguém. O sujeito é indeterminado, dissolvido na partícula como o açúcar no chá. Não é você que usa o cinza, nem eu, nem a mulher elegante que atravessa a avenida, é o "se", essa entidade sem rosto, sem corpo e sem desejo, que veste a todos e não é vestida por ninguém. Heidegger chamou-a de das Man, a gente, o impessoal, aquele que pensa o que se pensa, lê o que se lê, indigna-se com o que causa indignação e, naturalmente, usa o que se usa. A moda é o guarda-roupa do impessoal. E quem confia ao impessoal a escolha daquilo que lhe toca a pele já confessou, antes de qualquer outra coisa, que não gosta de nada.


A tese parece cruel, e é. Mas peço ao leitor que a examine antes de recusá-la, porque a crueldade, às vezes, é apenas a precisão vista de perto.


Gostar de alguma coisa é permanecer junto dela. Toda a tradição que pensou o amor concorda neste ponto, de Platão a Agostinho, de Dante a Simone Weil: o amor quer durar. Diotima ensina a Sócrates, no Banquete, que Eros não deseja apenas o belo, mas a posse do belo para sempre, e que é por isso que os mortais geram filhos, escrevem poemas e fundam cidades, para enganar um pouco a própria finitude e estender o abraço além da morte. O amor é uma reivindicação de eternidade feita por criaturas que sabem não tê-la. Quem gosta de uma canção quer ouvi-la de novo. Quem gosta de um livro o relê. Quem gosta de um casaco o remenda nos cotovelos, o leva ao alfaiate, aceita que ele envelheça consigo, que adquira a forma dos seus ombros e o cheiro dos seus invernos, até que já não se saiba onde termina o tecido e começa a biografia. O gosto é fiel por natureza. A infidelidade não é um excesso do gosto, é a sua ausência.


Ora, a moda é a infidelidade institucionalizada. É o único sistema estético da história humana cujo princípio constitutivo é o abandono. Uma escola de pintura nasce de uma convicção sobre a luz, uma tradição musical nasce de uma convicção sobre a harmonia, e ambas morrem quando a convicção se esgota. A moda não nasce de convicção alguma, nasce do calendário. Ela não morre porque se esgotou, morre porque o trimestre acabou. O que era belo em março é ridículo em setembro, não porque tenha mudado, mas porque o tempo passou, e a moda tem do tempo uma concepção puramente aritmética: belo é o que é recente, feio é o que é anterior. Walter Benjamin compreendeu isso com uma lucidez quase dolorosa quando definiu a moda como a eterna repetição do novo. Repare o leitor no paradoxo: o novo, que deveria ser o inédito, o irrepetível, a ruptura, torna-se ele mesmo rotina, ciclo, liturgia sazonal. A moda conseguiu a proeza de tornar a novidade monótona.


Giacomo Leopardi, esse grande triste que via mais longe do que os alegres, escreveu um diálogo pequeno e terrível, no qual a Moda se apresenta à Morte e reclama dela o reconhecimento de um parentesco. Somos irmãs, diz a Moda, ambas filhas da Caducidade. E enumera as suas obras para provar a semelhança: ela também aperta, perfura, deforma, queima, consome os corpos que a servem; ela também renova incessantemente o mundo varrendo o que existia; ela também não deixa que nada dure. A Morte, que a princípio não a reconhece, acaba por aceitá-la como colaboradora. O diálogo é uma sátira, mas é também uma das intuições mais profundas já escritas sobre o assunto. A moda é a morte em versão doméstica, a morte que se pode comprar a prazo, a morte que se veste. Cada estação ela executa um mundo inteiro de formas e cores, e nós aplaudimos a execução chamando-a de lançamento.


Mas por que alguém se entregaria voluntariamente a essa pequena morte periódica? Aqui a resposta precisa descer abaixo da superfície das vitrines.


Kierkegaard, na primeira parte de Ou Isto ou Aquilo, põe na boca do seu esteta um ensaio chamado A Rotação das Culturas. O esteta, homem refinadíssimo e desesperado, explica que o tédio é a raiz de todos os males, e que o único remédio contra ele é a variação contínua, não a mudança de terreno, que seria vulgar, mas a alteração constante do modo de cultivar o mesmo terreno, para que nada se torne habitual, nada pese, nada obrigue. O esteta não ama nada porque amar seria fixar-se, e fixar-se seria entediar-se. Ele prefere a lembrança à presença, a expectativa à posse, o flerte ao casamento. Kierkegaard não o condena com sermões, deixa-o falar até que o leitor perceba, sozinho, o abismo que há por baixo de tanta elegância. Pois o esteta não é um homem que goste de muitas coisas: é um homem que tem medo de gostar de uma. A variação é a sua defesa contra a profundidade. A moda é a rotação das culturas aplicada à multidão.


E é aqui que o eufemismo se revela. Dizer "eu acompanho a moda" soa como afirmar um gosto, um interesse, quase uma paixão. Mas o que a frase realmente declara é uma renúncia: eu não sei o que me agrada, então delego. Delego ao estilista, ao editorial, à vitrine, ao algoritmo, ao olhar alheio. Georg Simmel, num ensaio que permanece insuperado, mostrou que a moda vive de duas forças contraditórias, o desejo de imitar e o desejo de se distinguir: imitamos o grupo ao qual queremos pertencer e nos distinguimos do grupo do qual queremos fugir. Observe-se que nenhuma das duas forças tem qualquer relação com a coisa em si, com a cor, com o corte, com o tecido. Ambas são relações com os outros. A moda é um gosto inteiramente social, ou seja, um gosto sem objeto. O vestido não é desejado, é desejado o lugar que o vestido confere. Quem segue a moda não ama a roupa, ama a posição, e quem ama apenas a posição não ama nada que possa ser tocado.


Alguém objetará, com razão aparente, que Baudelaire defendeu a moda, que fez do transitório, do fugidio e do contingente metade da arte, e que o seu pintor da vida moderna era justamente um amante das modas passageiras, dos chapéus, das carruagens, dos vestidos de uma estação. É verdade, e a objeção merece ser levada a sério, porque ela nos obriga a precisar a tese. Baudelaire nunca elogiou o seguidor da moda; elogiou o dandy, e o dandy é exatamente o contrário do seguidor. O dandy escolhe. Ele extrai do efêmero aquilo que tem de eterno, como dizia o poeta, ele faz do traje uma disciplina, quase uma ascese, uma forma de afirmar a si mesmo contra a vulgaridade do tempo. Brummell não seguia a moda, a moda seguia Brummell, e quando ela o alcançava ele já estava noutro lugar. O dandy tem um gosto tão intenso que precisa se mover para não ser alcançado. O seguidor tem um gosto tão ausente que precisa ser movido para não ficar parado. Ambos mudam, mas um muda porque ama, e o outro muda porque não ama. A diferença entre os dois é a diferença entre o fogo que dança e a folha que voa: de longe, os movimentos se parecem; de perto, um é vida e o outro é vento.


Há uma tradição, distante dos salões de Paris, que conhece outra relação com as coisas. No Japão, quando uma tigela de cerâmica se quebra, existe uma arte de restaurá-la com laca misturada a pó de ouro, de modo que as rachaduras, em vez de escondidas, passam a brilhar. Chama-se kintsugi. A tigela remendada vale mais do que a intacta, porque traz em si a história do seu uso, do acidente, do cuidado. Tanizaki, no seu Elogio da Sombra, defendeu com uma melancolia deliciosa a beleza dos objetos que envelhecem, o brilho fosco da prata tocada por gerações de mãos, a pátina que a pressa ocidental chama de sujeira e que o olhar paciente chama de memória. Eis a antítese perfeita da moda: uma estética em que o tempo não destrói o valor, mas o produz. Para quem ama, a passagem dos anos enriquece o objeto amado. Para quem segue a moda, a passagem dos anos é apenas o prazo de validade se cumprindo. O amante remenda, o seguidor descarta. E descartar, com regularidade sazonal, aquilo que ontem se dizia desejar é o sintoma mais claro de que nunca houve desejo, houve apenas consumo do próprio ato de desejar.


Pois é disso que se trata, no fundo. A moda não oferece objetos, oferece o desejo em estado puro, desligado de qualquer coisa que o satisfaça. Ela nos vende a sensação de querer, renovada a cada estação como uma assinatura. Pascal diria que é divertimento, no sentido mais rigoroso da palavra: divertere, desviar, virar o rosto. O homem que corre atrás da próxima coleção não está correndo atrás de nada, está fugindo de algo, e o algo de que foge é a pergunta insuportável que nenhuma vitrine responde: do que eu gosto, realmente? O que, neste mundo, eu seria capaz de amar a ponto de não querer substituir? A moda é a resposta que permite nunca fazer a pergunta.


Agostinho, que entendia do assunto porque tinha sido um grande infiel antes de ser um grande fiel, dizia que o homem é aquilo que ama, e que a virtude não passa de uma ordem bem disposta do amor, ordo amoris. Diz-me o que amas e te direi quem és. Se aplicarmos a fórmula ao seguidor da moda, chegaremos a um resultado vertiginoso: ele ama aquilo que muda, portanto é aquilo que muda, portanto não é. Ele se tornou uma superfície de inscrição para os desejos do impessoal, um manequim que respira. Não há nele uma pessoa que escolhe, há um "se" que usa. E essa, talvez, seja a mais secreta das tragédias modernas: não a perda do gosto, que seria apenas uma pobreza, mas a perda do sujeito do gosto, que é uma espécie de desaparecimento.


Nietzsche chamou de intempestivo o pensador que vive contra o seu tempo, que não aceita as urgências do dia, que se recusa a considerar verdadeiro aquilo que é apenas atual. Gostar de alguma coisa, gostar de verdade, com a obstinação de quem já não quer outra, é sempre um gesto intempestivo. Quem ama está necessariamente fora de moda, porque o amor tem um relógio diferente do mercado. A mulher que usa há trinta anos o mesmo perfume, porque foi o perfume da sua mãe; o velho que não troca o chapéu, porque foi com ele que conheceu a esposa; o leitor que volta, a cada década, ao mesmo romance e o encontra mais fundo a cada volta; todos esses são anacrônicos, e todos esses sabem algo que as vitrines ignoram. Sabem que a fidelidade não é monotonia, é aprofundamento. Que repetir não é o mesmo que estagnar, porque quem ama não repete, retorna, e o retorno é sempre a uma coisa um pouco mais rica do que a deixada.


A moda morre a cada estação, e ressuscita, e morre outra vez, e nesse ciclo sem fim imita uma eternidade que não possui. O amor morre uma vez só, e às vezes nem isso. Entre as duas imortalidades, a falsa que se renova e a verdadeira que permanece, o homem contemporâneo escolheu a primeira, porque ela não exige nada além de um cartão de crédito e uma certa disponibilidade para o esquecimento. Chamou essa escolha de estilo. Chamou-a de liberdade. Chamou-a, com o orgulho dos que não leram Leopardi, de estar em dia.


Mas a língua, que é mais sábia do que quem a fala, guardou a verdade naquela partícula pequena e implacável. Usa-se. E onde tudo se usa, nada se ama, e onde nada se ama, ninguém está. Restam apenas as roupas, desfilando sozinhas por uma passarela infinita, vestindo a ausência de quem as deveria vestir.


Oliver Harden

Subscrito 

Bonani 

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