Ideia que começa no silêncio de uma madrugada
Às duas da madrugada de 31 de outubro de 1920, um jovem médico canadense acordou com uma ideia na cabeça.
Frederick Banting tinha 28 anos.
Naquela época, atendia poucos pacientes em seu consultório em London, Ontário, e complementava a renda dando aulas. Naquela noite, preparava uma aula sobre o pâncreas quando teve uma ideia que parecia improvável.
Ele se levantou e escreveu algumas palavras em uma pequena caderneta.
Entre elas:
“Diabetes. Ligue os ductos pancreáticos de um cão…”
Havia erros de ortografia.
Mas aquela anotação apressada acabaria dando início a uma das maiores revoluções da história da medicina.
Há anos os cientistas suspeitavam de que o pâncreas produzia alguma substância capaz de controlar o açúcar no sangue. O problema era descobrir como isolá-la.
Banting havia lido sobre pacientes cujos ductos pancreáticos estavam bloqueados. Quando isso acontecia, boa parte do tecido responsável pelas enzimas digestivas se deteriorava, enquanto os pequenos agrupamentos de células conhecidos como ilhotas de Langerhans podiam permanecer preservados.
Então ele imaginou:
E se fosse possível destruir a parte do pâncreas responsável pela digestão e, depois, extrair a substância produzida pelas ilhotas?
A hipótese parecia simples.
Transformá-la em realidade seria outra história.
Banting procurou ajuda e acabou sendo encaminhado a John J. R. Macleod, professor da Universidade de Toronto e especialista em metabolismo dos carboidratos.
Macleod inicialmente desconfiou da proposta.
Mas decidiu dar uma oportunidade àquele jovem médico.
Forneceu-lhe um laboratório, cães para os experimentos e dois estudantes como possíveis assistentes. Um deles era Charles Best.
Em maio de 1921, Banting e Best começaram a trabalhar.
E quase tudo deu errado.
As operações eram difíceis. Muitos cães morreram de infecções. O laboratório era quente e inadequado. Os resultados iniciais eram frustrantes.
Mas eles continuaram.
Até que, em 30 de julho de 1921, aconteceu algo extraordinário.
Banting e Best injetaram um extrato pancreático em um cão diabético.
A quantidade de açúcar no sangue caiu drasticamente.
Era a primeira evidência concreta de que aquela misteriosa secreção do pâncreas poderia realmente controlar a diabetes. (Coleções U of T)
Mas ainda havia um problema.
O extrato era impuro.
E descobrir uma maneira de transformá-lo em um tratamento seguro para seres humanos seria tão importante quanto a própria descoberta.
Foi então que entrou em cena o bioquímico James Collip.
Trabalhando na purificação do extrato, Collip conseguiu produzir uma preparação muito mais adequada para uso clínico.
Enquanto isso, no Hospital Geral de Toronto, havia um menino de 14 anos chamado Leonard Thompson.
Ele sofria de diabetes desde 1919.
Pesava apenas cerca de 30 quilos.
Naquela época, crianças com diabetes tipo 1 praticamente não tinham uma saída. A chamada dieta de inanição podia prolongar a vida por algum tempo, mas não eliminava a causa da doença.
Leonard estava perto da morte.
Em 11 de janeiro de 1922, ele recebeu a primeira injeção experimental do extrato.
O resultado inicial foi decepcionante.
A glicose caiu pouco e Leonard apresentou uma reação à preparação.
O extrato ainda não estava suficientemente purificado.
Collip voltou ao laboratório.
Doze dias depois, em 23 de janeiro, Leonard recebeu uma nova preparação.
Dessa vez, algo extraordinário aconteceu.
Sua glicose caiu de maneira significativa.
Os níveis de açúcar e cetonas na urina diminuíram.
E a reação apresentada na primeira tentativa não se repetiu.
Pela primeira vez, havia uma demonstração convincente de que aquela substância podia fazer algo que, até então, parecia impossível:
manter vivo um paciente que estava morrendo de diabetes. (U of T Magazine)
Leonard Thompson viveria por mais 13 anos.
A descoberta se espalhou rapidamente.
Em 1923, Frederick Banting e John Macleod receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta da insulina.
Mas Banting ficou indignado porque Charles Best não havia sido incluído na premiação.
Então tomou uma decisão.
Dividiu sua parte do dinheiro do Nobel com Best.
Macleod fez o mesmo com James Collip. (U of T Magazine)
Mas talvez a decisão mais simbólica tenha vindo depois.
Banting, Best e Collip transferiram os direitos da patente da preparação da insulina para a Universidade de Toronto por uma quantia simbólica de um dólar cada.
A intenção era evitar que uma pessoa ou empresa transformasse aquela descoberta em um monopólio privado.
A universidade poderia licenciar a produção e permitir que a insulina chegasse a um número muito maior de pacientes.
A descoberta que havia começado com experimentos em cães agora poderia ser produzida em escala para salvar vidas. (Fisher Digitus)
E tudo isso começou com um homem de 28 anos acordando no meio da madrugada.
Ele pegou uma caneta.
Abriu uma caderneta.
E escreveu uma ideia que ainda não sabia se funcionaria.
Às vezes, uma das maiores revoluções da história não começa em um grande laboratório, diante de dezenas de cientistas.
Às vezes, começa no silêncio de uma madrugada, quando alguém tem uma ideia — e decide escrevê-la antes que ela desapareça
Subscrito
Bonani

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