Não Vemos o Mundo Como Ele É, Vemos Como Somos
Pensa num filtro do Instagram.
Você tira foto do céu azul, mas coloca um filtro vermelho. Aí você mostra e fala: "Olha, o céu está vermelho! Eu vi, eu fotografei, eu provei!"
A outra pessoa vai brigar com você sobre o céu.
O Jung entra e fala: "Calma. A pergunta não é se o céu está vermelho. A pergunta é: quem colocou o filtro?"
Todo mundo anda com um filtro invisível dentro da cabeça. Esse filtro é sua história, seu medo, sua sombra, sua personalidade.- Duas pessoas veem a mesma briga. Uma vê "injustiça". Outra vê "mimimi". O que mudou? O que foi visto ou QUEM viu?- Duas pessoas ouvem a mesma música. Uma chora. Outra ri.
Então não adianta discutir o que foi visto, ouvido, pesado e contado.
Tem que perguntar primeiro: quem é essa pessoa que está vendo, ouvindo e pensando?
Porque a gente nunca vê o mundo como ele é. A gente vê o mundo como a gente é.
Imagina 3 crianças vendo o mesmo cachorro na rua.
O cachorro só está ali, balançando o rabo.
Criança 1 foi mordida quando era pequena. Ela vê o cachorro e grita: "CACHORRO BRAVO! VAI ME MORDER!"
Criança 2 tem um cachorro igual em casa que ela ama. Ela vê e grita: "QUE FOFO! VEM CÁ!"
Criança 3 está com fome e o pai falou que não pode ter cachorro. Ela vê e pensa: "Que sorte ter um cachorro."
Foi o mesmo cachorro? Sim.
Foi visto, ouvido, tocado? Sim.
Mas por que cada uma viu uma coisa diferente?
Porque a pergunta certa não é "como é o cachorro?"
A pergunta certa é: QUEM está vendo o cachorro?
A criança com medo vê monstro.
A criança com amor vê amigo.
A criança com falta vê desejo.
É isso que Jung quer dizer. A gente nunca discute o cachorro. A gente discute quem a gente é por dentro, sem perceber.
Mesma esquina. Uma menina de 11 anos vendendo bala no sinal para levar arroz pra casa.
É a mesma menina. 3 adultos no carro veem ela.
Adulto 1 - O moralista do Instagram.
Ele filma, posta: "Olha que absurdo! Cadê o Estado? Isso é culpa do capitalismo! Essa criança deveria estar brincando!"
Ele fica indignado por 30 segundos. Ganha likes. Depois fecha o vidro.
Ele não viu a menina. Ele viu uma oportunidade de mostrar que ele é virtuoso. A menina virou argumento.
O filtro dele é vaidade moral. A pergunta que ele deveria se fazer é: eu quero ajudar ela ou eu quero que os outros vejam que eu me importo com ela?
Adulto 2 - O empresário que se fez sozinho.
Ele olha e diz: "Tá vendo? É guerreira! Desde cedo aprendendo o valor do trabalho! É disso que o Brasil precisa, menos mimimi!"
Ele romantiza. Transforma sobrevivência em empreendedorismo.
Ele não viu a menina com frio, com medo, com vergonha de não estar na escola. Ele viu a história dele mesmo, que ele conta pra não chorar.
O filtro dele é: se eu sofri e venci, então sofrer é bom. Se ele admitir que aquela menina está sendo destruída, ele tem que admitir que ele também foi.
Adulto 3 - O cara que romantiza a pobreza.
Ele diz: "Que linda, que pura, que sorriso autêntico. Pobre mas feliz."
É a simulação da vida simples.
Ele nunca vendeu bala com fome. Ele pode achar bonito porque ele vai voltar pro ar-condicionado. A menina não tem essa opção. Para ela não é pureza, é necessidade premente. Como Jung disse, só a necessidade real cala o inconsciente. Ela não é mais feliz, ela está ocupada demais sobrevivendo para ter crise existencial.
A menina mesmo, o que ela vê?
Ela não vê "luta contra o sistema" nem "espírito empreendedor". Ela vê: "se eu não vender 10, hoje não tem janta".
E é por isso que Jung é brutal:
Quem nunca teve essa necessidade real, nunca vai entender a menina. Vai sempre projetar.
Por isso a pergunta dele vale de novo:
Não é "a menina trabalhar é certo ou errado?" - isso qualquer um responde com teoria.
É: QUEM em você está olhando para essa menina agora e por que precisa vê-la desse jeito para continuar dormindo em paz?
Agora mudando somente para você com você mesmo. Imagine que a vida é um filme passando na tela.
A gente passa a vida inteira discutindo o filme:
"Será que isso aconteceu mesmo? Será que eu ouvi direito? Será que foi tocado, pesado, contado? Será que faz sentido lógico?"
Jung chega e pausa o filme e fala:
"Para de olhar para a tela. Olha para a cadeira. QUEM está sentado assistindo esse filme?
Porque não existe um único "você" assistindo.
Tem dias que quem está assistindo é uma criança assustada de 5 anos. No mesmo filme, ela vê perigo em tudo.
Tem dias que quem está assistindo é um(a) juíz(a) cruel. No mesmo filme, ela vê defeito em tudo.
Tem dias que quem está assistindo é alguém em paz. No mesmo filme, ela vê só um filme.
O filme não mudou. Quem estava na cadeira mudou.
Então a frase quer dizer isso: Não pergunte mais "isso foi real? isso aconteceu mesmo? isso é lógico?"
Pergunte: "Qual parte de mim está vendo isso agora? É a minha ferida? É o meu medo? É a minha alma consciente?"
Quando você descobre QUEM está vendo, ouvindo e pensando dentro de você, o que foi visto lá fora perde o poder.
Subscrito
Bonani

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