Entre distopia e revelações: Orwell, o profeta que fingiu ser ficcionista



Confesso que sempre me intriguei com a maneira como o tempo julga os escritores. Uns são enterrados pelo esquecimento, outros são exumados por conveniências históricas, e há aqueles, raros, que parecem ter escrito não para sua época, mas contra ela, como se tivessem nascido em descompasso voluntário com o presente, para melhor anunciar os espectros do futuro. George Orwell, para mim, pertence a essa última estirpe.


Ainda que catalogado nas estantes como romancista político ou ficcionista distópico, sinto que há algo de profundamente inadequado nesse enquadramento. Orwell não escrevia como quem inventava, escrevia como quem alertava. Suas palavras, ainda que revestidas da estética literária, carregam o peso de um testemunho. Não um testemunho do que foi, mas do que poderia vir a ser, caso continuássemos surdos, conformados e entorpecidos. Ele fingiu narrar futuros impossíveis, quando na verdade nos entregava manuais antecipados do real.


Quando leio 1984, não o leio como romance. Leio como diagnóstico. Leio como quem assiste a uma profecia, não no sentido místico, mas ético, uma denúncia travestida de ficção, uma radiografia do poder nu, sem adorno, sem sedução. A manipulação da linguagem, a vigilância como norma, o controle da memória, a conversão da mentira em verdade operacional, tudo isso me parece menos uma invenção literária e mais uma descrição desconcertante do que se tornou a maquinaria política do mundo contemporâneo.


E aqui reside o paradoxo, Orwell foi ficcionista por necessidade, profeta por consequência. Escreveu histórias para escapar da censura da literalidade, mas o que deixou foram advertências. Ao ler A Revolução dos Bichos, não enxergo apenas uma sátira do stalinismo, enxergo um retrato atemporal da corrupção do ideal, da facilidade com que utopias se tornam ferramentas de dominação, e de como os porcos, invariavelmente, tornam-se mais iguais do que os outros.


Há quem diga que suas obras são exageradas. Mas quem ousaria afirmar isso após ver a banalização da vigilância digital, a reescrita constante das narrativas políticas, a glorificação do consumo em troca da renúncia ao pensamento? Quem, em plena era do “duplipensar”, dos algoritmos que nos conhecem melhor do que nós mesmos, das guerras perpétuas travadas por causas maleáveis, ousaria acusar Orwell de exagero? O que se chamou outrora de ficção hoje é protocolo de realidade.


Orwell não nos deu um mundo a imaginar, deu-nos um espelho a temer. E talvez seja por isso que ainda hoje o lemos com desconforto. Porque suas palavras não nos oferecem consolo, tampouco nostalgia. São farpas cravadas na consciência, clamando por lucidez num tempo que celebra a ignorância como virtude, e a passividade como estilo de vida.


Se ser profeta é ver antes dos outros aquilo que os outros se recusam a ver, então sim, Orwell foi profeta. Um profeta às avessas, que, ao invés de visões sagradas, nos legou páginas rasgadas da alma humana diante do poder. E se ser ficcionista é criar mundos para falar do nosso, então também o foi. Mas foi, acima de tudo, um inquieto, um resistente, um homem que escolheu escrever contra as sombras, mesmo sabendo que seriam elas a dominar o palco.


Eu o leio não como quem admira, mas como quem é advertido.

E se há ainda em mim alguma esperança, é que suas palavras continuem a perturbar, antes que seja tarde demais para distingui-las do noticiário.


Oliver Harden

Subscrito 

Bonani

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