O silêncio das palavras não ditas: A Poesia do Incompleto

 



Entre o que sentimos e o que dizemos abre-se um intervalo que nenhuma gramática conseguiu ainda medir. Não é um abismo no sentido trágico da palavra, desses que engolem; é antes uma fenda estreita, quase imperceptível, por onde escorre aquilo que fomos sem conseguir declarar. Ali habitam as frases ensaiadas diante do espelho e nunca pronunciadas, os gestos que o corpo começou e a timidez interrompeu, as cartas escritas mentalmente durante insônias inteiras e jamais postas no papel. Esse intervalo tem uma substância curiosa: é feito de ausência, e no entanto pesa. É feito de nada, e no entanto ocupa espaço. Chamamos a isso saudade quando olhamos para trás, e angústia quando olhamos para a frente, mas é sempre a mesma matéria, a matéria do não acontecido.


O silêncio, que costumamos tomar por simples falta de som, revela-se então um arquivo. Ele não é vazio; é saturado. Guarda as hesitações com a fidelidade de um tabelião, e quando enfim nos calamos diante de alguém, ele não nos deixa em paz, porque fala por nós na única língua que domina, a do que ficou por dizer. Wittgenstein encerrou o seu Tractatus afirmando que sobre aquilo de que não se pode falar deve-se calar, e muitos leram nisso uma interdição lógica. Mas há outra leitura, mais íntima e mais dolorosa: aquilo de que não se pode falar é precisamente o que mais importa, e o calar não é a ausência do sentido, é a sua forma extrema. O silêncio não é o contrário da palavra. É a palavra no seu estado de maior densidade, antes de se dissolver em frase.


Somos, todos nós, edifícios inacabados. Aristóteles distinguia a potência do ato, aquilo que pode ser daquilo que efetivamente é, e via na passagem de um ao outro o próprio movimento da natureza. O que ele não descreveu, porque não era essa a sua tarefa, foi o destino das potências que nunca chegaram a ato. Onde vão parar os amores que não floresceram, as reconciliações adiadas até que um dos dois morresse, as vocações abandonadas na juventude por prudência ou medo? Não desaparecem. Sedimentam-se. Formam em nós uma segunda biografia, subterrânea, paralela, mais extensa que a primeira, e que nos acompanha como o negativo acompanha a fotografia: invisível, mas sem ele a imagem não existiria.


É nesse condicional, nesse obstinado "poderia ter sido", que se aloja a melancolia mais fina. Kierkegaard sabia que a possibilidade é a mais pesada das categorias, justamente porque nela tudo é igualmente possível, o terrível tanto quanto o sublime. Enquanto uma escolha não se faz, carregamos todas as suas versões ao mesmo tempo; depois de feita, ou de perdida, carregamos o luto das versões que não vingaram. O arrependimento, visto de perto, não é a dor pelo que fizemos. É a dor pela multiplicidade que tivemos de sacrificar para sermos apenas um. Cada vida vivida é um cemitério de vidas possíveis, e caminhamos sobre ele sem saber exatamente quais lápides são nossas.


Mas seria um erro tomar essa condição como mera falha moral, como se bastasse coragem para dizer tudo e viver tudo. Há uma razão mais funda pela qual nunca vivemos plenamente, e ela não está na covardia, embora a covardia exista. Está na própria estrutura do tempo humano. Viver é escolher, e escolher é excluir; falar é ordenar o caos interior em sintaxe, e toda sintaxe trai um pouco aquilo que organiza. Clarice Lispector passou a obra inteira tentando alcançar, com palavras, o que fica aquém e além delas, e sabia que a escrita só pesca o indizível usando a própria palavra como isca, consciente de que a isca jamais será o peixe. A linguagem não é uma ponte que atravessa o abismo; é uma corda lançada sobre ele, e quase sempre a corda é curta.


O arrependimento, portanto, é o reflexo invertido de um desejo: o desejo de ter sido mais do que a forma humana permite. Ele nasce quando percebemos que, arrastados pela pressa dos dias, deixamos passar o olhar que pedia demora, o toque que pedia sinceridade, a frase que talvez tivesse alterado o curso de uma vida. E percebemos isso sempre tarde, porque o sentido de um instante só se revela depois que ele já não pode ser habitado. Hegel dizia que a coruja de Minerva levanta voo apenas ao entardecer; a sabedoria chega quando o dia já se cumpriu. O arrependimento é essa coruja pousada no ombro de cada um de nós, lúcida demais e sempre atrasada.


E, no entanto, é com esses vazios que nos esculpimos. O escultor não acrescenta, retira; Michelangelo dizia ver a figura já presa no mármore, cabendo-lhe apenas libertá-la do excesso de pedra. Talvez o mesmo valha para a alma: aquilo que não dissemos, aquilo que não fizemos, são os golpes de cinzel que desenharam o nosso contorno. Uma pessoa não é definida apenas pelo que realizou, mas pela forma precisa das suas renúncias, pelo desenho das suas ausências. Retirem de alguém os seus silêncios e ele se tornará irreconhecível, porque terá perdido justamente a sombra que lhe dava volume.


A arte sempre soube disso melhor que a filosofia. A Sinfonia Inacabada de Schubert não nos comove apesar de lhe faltarem movimentos, mas também por isso: termina onde termina, e o que falta ressoa como uma pergunta suspensa no ar da sala de concerto. Os torsos gregos mutilados pelo tempo, que Rilke contemplou até sentir que eram eles a olhá-lo, parecem mais vivos do que estariam intactos, porque a ausência da cabeça obriga o mármore inteiro a ver. Keats chamou de capacidade negativa a disposição de permanecer na incerteza, no mistério, na dúvida, sem a ânsia irritável de alcançar fatos e razões. Era, no fundo, uma ética do incompleto: a recusa de fechar à força aquilo que ainda respira por estar aberto.


Talvez seja esta a lição que o silêncio, paciente, nos ensina. Nem tudo precisa ser resolvido. Nem toda ferida pede sutura; algumas pedem apenas atenção. Há uma beleza própria do não dito, que não se confunde com a resignação nem com a covardia, mas que consiste em reconhecer que a existência é por natureza uma frase interrompida, e que a interrupção faz parte do sentido. As lacunas doem, sim, e seria desonesto negá-lo. Mas são elas que dão à trama a sua textura, como os espaços entre os fios dão ao tecido a capacidade de respirar. Um pano sem intervalos não seria tecido; seria uma placa.


Aceitar o incompleto não é desistir do que poderia ter sido. É devolver àquilo que não aconteceu a dignidade de ter existido como possibilidade, e reconhecer que também ele nos formou. É compreender que o ser humano não é um ponto final, mas uma reticência, e que é justamente nas reticências que a frase continua a ecoar depois de terminada. Os mortos que amamos e a quem não dissemos o essencial, os caminhos que não tomamos, as palavras que engolimos por orgulho ou por ternura, tudo isso permanece em nós como uma música que ouvimos apenas quando o resto se cala.


E é talvez nesse instante, quando tudo se cala, que compreendemos que a poesia de existir nunca esteve na completude. Esteve sempre na falta, nesse espaço trêmulo entre o que somos e o que quase fomos, onde o silêncio, longe de ser o fim da linguagem, revela-se a sua origem mais secreta.


Oliver Harden

Subscrito 

Bonani

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