QUANDO MENOS SE ESPERA, O QUE SERIA, JÁ ERA



Há na língua portuguesa um tempo verbal que deveria ser estudado menos pelos gramáticos e mais pelos filósofos. Chama-se futuro do pretérito, e o nome, à primeira vista técnico e inofensivo, guarda uma pequena tragédia: é o futuro que mora dentro do passado, o amanhã que já nasceu velho, a promessa que se conjuga com voz de lembrança. "Seria" é o verbo de tudo aquilo que esteve a um passo de acontecer e, no entanto, permaneceu suspenso na beira do mundo, como um pássaro que abre as asas para o voo e descobre, no instante seguinte, que a árvore onde pousaria já foi cortada.
E há, na fala do povo, uma expressão que completa a gramática com a crueza que só a rua conhece: "já era". Duas palavras e um velório inteiro. O pretérito imperfeito, que nas aulas aprendemos como o tempo da continuidade, do que durava, do que costumava ser, vira na boca das pessoas o carimbo do irremediável. Quando se diz "já era", diz-se que algo passou sem pedir licença, que o trem partiu enquanto ainda procurávamos o bilhete no bolso do casaco, que a porta se fechou do lado de lá e não tem maçaneta do lado de cá.
Entre o "seria" e o "já era" cabe a vida inteira. Ou, mais exatamente, cabe aquela parte da vida que não chegou a ser vivida e que, por um paradoxo que nenhum relógio explica, ocupa em nós mais espaço do que tudo o que de fato vivemos.
Aristóteles ensinou que todo ser se move da potência ao ato: a semente tende à árvore, o bloco de mármore guarda em silêncio a estátua, a criança contém o adulto como a manhã contém a tarde. Mas o filósofo de Estagira pouco se demorou sobre a potência que nunca se atualiza, a semente que apodrece na terra seca, o mármore que acaba virando degrau de escada. É essa, porém, a matéria do nosso tema: não o que se tornou, mas o que poderia ter se tornado e, por um descuido do tempo ou por um descuido nosso, deslizou diretamente do possível para o pretérito sem jamais atravessar o presente. Há coisas que morrem sem ter nascido. E esse talvez seja o luto mais estranho que conhecemos, porque não há corpo para enterrar, não há data para gravar na pedra, não há sequer o direito de chorar em público aquilo que, aos olhos do mundo, nunca existiu.
"Quando menos se espera", diz a primeira metade da frase, e convém examiná-la com cuidado, porque ela esconde uma acusação. O português, como o espanhol, deixa que o mesmo verbo signifique aguardar e ter esperança. Esperar é estar voltado para o que virá. Pascal, que conhecia como poucos a inquietude do coração humano, observou que nunca vivemos de fato, apenas esperamos viver, e que, estando sempre a nos preparar para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos. O presente, dizia ele, raramente é o nosso fim; é apenas meio, e por isso o atravessamos como quem atravessa uma sala de espera, sem reparar nos quadros da parede. Eis a ironia: é justamente porque esperamos demais o que há de vir que deixamos de esperar, no sentido antigo de vigiar, o que já está diante de nós. Quem vive de esperança esquece de montar guarda. E é nessa distração, nesse olhar perdido no horizonte, que o "seria" escorrega silenciosamente para o "já era". Quando menos se espera significa, no fundo, quando mais se esperava outra coisa.
Kierkegaard deixou em seus diários uma observação que deveria estar escrita na cabeceira de todo homem: a vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas precisa ser vivida olhando para a frente. O "já era" é a compreensão que chega atrasada, como um mensageiro que corre até o campo de batalha para anunciar a paz quando os soldados já tombaram. E o "seria" é o nome que damos, depois, àquilo que vivíamos para a frente sem saber que vivíamos. Ninguém percebe que está na última conversa com alguém. Ninguém sabe que aquela tarde comum de terça-feira era a derradeira em que a casa ainda estava inteira. As despedidas mais definitivas da existência acontecem sem cerimônia, disfarçadas de até logo.
O mesmo Kierkegaard chamou a angústia de vertigem da liberdade. Diante do possível, o homem sente o abismo que se abre sob seus pés e, muitas vezes, para não cair, simplesmente não se move. Imagina estar preservando suas opções, mantendo todas as portas entreabertas, e não percebe que o tempo é um zelador incansável que vai fechando, uma a uma, as portas que deixamos de atravessar. Não existe escolha mais definitiva do que a escolha de não escolher, porque nesse caso o tempo escolhe por nós, e o tempo nunca escolhe a nosso favor. A carta que não foi enviada, o perdão que ficou para depois, a visita ao pai marcada para o próximo feriado, o livro que seria escrito quando houvesse sossego, o amor que seria declarado quando houvesse coragem: tudo isso não foi negado por nenhum tirano, por nenhuma catástrofe. Foi apenas adiado, e o adiamento é a forma mais educada que a perda encontrou de entrar em nossas vidas.
"Ainda temos tempo" talvez seja a frase mais mentirosa que a boca humana já pronunciou, não porque seja sempre falsa, mas porque é sempre dita por quem não sabe se é verdadeira.
Heráclito afirmou que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Seria preciso acrescentar uma nota de rodapé ao fragmento do sábio de Éfeso: há rios em que não nos banhamos sequer uma vez, porque ficamos à margem medindo a temperatura da água, calculando a correnteza, aguardando a estação mais propícia, e quando enfim descemos a encosta o leito já está seco e coberto de pedras. O rio não esperou por nós. Rio nenhum espera.
Borges imaginou um jardim de caminhos que se bifurcam, um labirinto feito não de espaço mas de tempo, no qual todas as possibilidades se realizam em ramificações infinitas. Em algum desses ramos, o que seria foi. Lá, a palavra foi dita, o encontro aconteceu, a vida tomou a curva que aqui não tomou. Há quem veja nisso um consolo metafísico. Eu desconfio que seja a forma mais requintada de crueldade, porque o outro ramo, para quem habita este, é apenas um fantasma luminoso, uma casa iluminada que se vê de longe, numa noite fria, sem jamais saber o caminho até a porta. Manuel Bandeira, que conheceu cedo a vizinhança da morte e passou a juventude sabendo que talvez não tivesse velhice, compreendeu como poucos que uma existência pode ser feita sobretudo daquilo que poderia ter sido. E não foi por acaso que transformou essa ausência em poesia: o poeta é, de certo modo, o arquivista oficial dos futuros do pretérito.
Heidegger definiu a morte como a possibilidade da impossibilidade de toda possibilidade. A fórmula, áspera como granito, ilumina nosso tema de maneira inesperada. Cada "já era" é uma morte em miniatura, um ensaio geral da última cena. Toda possibilidade que se fecha é um pequeno anúncio daquela que fechará todas. Por isso o "já era" dói mais do que parece merecer: não lamentamos apenas o ônibus perdido, o emprego recusado, a palavra engolida; lamentamos, sem saber, o fato de sermos seres finitos, cujas possibilidades não são inesgotáveis, cujo estoque de amanhãs tem fundo. O que seria e já era nos recorda, em voz baixa, que nós também seremos e um dia já teremos sido.
Seria fácil terminar aqui, no tom grave do lamento, como quem fecha o caixão e sai do cemitério de cabeça baixa. Mas a reflexão honesta exige que se dê ainda um passo, e esse passo nos leva a Nietzsche. Em uma das passagens mais pungentes de seu Zaratustra, ele confessa que a maior dor da vontade é não poder querer para trás. A vontade é capaz de mover montanhas no futuro, mas diante do "foi" ela range os dentes, impotente, como prisioneira diante de grades que nenhuma força dobra. O passado é a pedra que a vontade não consegue rolar. E qual é a redenção proposta pelo filósofo? Não o esquecimento, não a resignação, mas a transfiguração: converter todo "assim foi" em "assim eu o quis". Amar o próprio destino inteiro, inclusive suas lacunas, inclusive seus futuros abortados. Não se trata de fingir que a perda não aconteceu, mas de apropriar-se dela, de recusar-se a ser apenas a vítima do tempo para tornar-se o autor do sentido que se dá ao tempo.
Há ainda uma verdade mais sutil escondida em nossa frase. O que seria e já era não deixou de existir por completo. A possibilidade foi real enquanto durou. O desejo que nunca se cumpriu nos formou, o amor que não chegou a ser declarado nos ensinou a amar, o caminho que não percorremos desenhou, por contraste, o contorno daquele que percorremos. Somos feitos tanto do que fomos quanto do que poderíamos ter sido, assim como uma escultura é feita tanto do mármore que permaneceu quanto do mármore que o cinzel arrancou. Proust gastou sete volumes para demonstrar que o tempo perdido só se reencontra na forma, na arte, na memória trabalhada pela linguagem. Talvez seja essa a única pátria onde o futuro do pretérito finalmente se conjuga no presente: a página. Ali, o que seria, enfim, é.
Resta, então, a lição prática, se é que a filosofia pode oferecer alguma sem trair a si mesma. Se o "já era" chega sempre quando menos se espera, a única defesa possível é aprender a esperar de outro modo: não mais como quem aguarda o amanhã, mas como quem vigia o hoje. Uma espécie de reforma gramatical da existência. Trocar o futuro do pretérito pelo presente do indicativo. Em vez de "eu diria", digo. Em vez de "eu iria", vou. Em vez de "eu amaria", amo. O presente do indicativo é o tempo verbal da coragem, o único em que a vida não é hipótese nem lembrança, mas acontecimento.
E já que falamos de tempo, confesso uma última ironia. Estas linhas que você lê agora também já eram no instante em que foram escritas. A mão que as traçou não está mais naquele minuto, o pensamento que as gerou seguiu adiante, o escritor que as concebeu já é outro, ainda que use o mesmo nome. Mas enquanto são lidas, elas são. E talvez seja isso tudo o que nos é concedido: não a posse do que seria, nem o resgate do que já era, mas a breve e assombrosa graça de estar sendo.
Oliver Harden

Subscrito

Bonani

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